Em “Living The Dream”, Slash celebra o hard rock mais uma vez

Slash – Living The Dream (2018)

Por Gabriel Sacramento

O título do novo álbum é uma ironia, disse Slash em entrevista. A ideia do guitarrista era brincar com uma ideia de sonho em mundo cada vez mais maluco como esse em que vivemos. Sua carreira continua empolgante, sendo Living The Dream o terceiro trabalho com Myles Kennedy e The Conspirators, sua banda de apoio. A consistência que eles têm conseguido juntos é impressionante. Se essa banda fosse uma equipe defensiva em algum time de futebol por aí, não passaria nada.

Gravado em Los Angeles, o novo disco não tem a pretensão de mexer nas táticas que deram certo antes. A produção é de Michael Baskette, o mesmíssimo cara dos anteriores, que também trabalhou no excelente Year of The Tiger (2018) do Kennedy e em alguns discos do Alter Bridge. Baskette também trabalhou na engenharia e na mixagem do trabalho.

O disco já começa incendiário com “The Call of The Wild”, com características que permanecem ao longo do álbum: uma agilidade rítmica impressiva, velocidade, riffs afiados e um vocal flexível e seguro. Baskette trabalha uma sensação de som em movimento, mas também explora um aspecto divertido e descontraído em cada escolha, revelando que, acima de tudo, o que importa é dar boas risadas e curtir o momento. Inicialmente, achei que a banda me perderia ao longo do registro, mas ao chegar no final, percebi que o bom humor e energia são, de fato, contagiantes e duram bem ao longo do registro.

Por trás dessa veia hard rock, tem sofisticação harmônica e melódica também. As muletas do blues aparecem aqui e acolá, mas são tão usados com muita classe, sem chegar a prejudicar a proposta. A banda trabalha a relação e a independência entre os instrumentos, explorando uma dinâmica que depende muito menos da guitarra do que pode parecer. Afinal, quando a gente lê que é um álbum do Slash, a primeira coisa que poderíamos pensar seria que se trata de um disco totalmente orientado às seis cordas. No entanto, o legal dos discos lançados por essa galera é esse foco no formato canção, no desenvolvimento de boas partes de melodias vocais, de linhas de baixo e de variações de banda. Ou seja, a banda brilha, e não somente a guitarra do cara da cartola que assina o nome na capa.

Mesmo que seus solos sejam bons, abusando de clichês e elementos típicos de um estilo mais hard rock e blueseiro de tocar guitarra, Slash sabe bem dividir o foco entre os companheiros. Brent Fitz é preciso e varia muito bem na bateria, Todd Kerns é uma muralha nos graves e Frank Sidoris contribui com mais corpo para as guitarras.

O hard rock passa por momentos inconstantes em suas reencarnações modernas. De vez em quando, surgem bandas como Jet e Airbourne, mas logo elas viram rotina. Um dos discos mais sensacionais do gênero que ouvi recentemente foi o Generation Me (2016) do The Treatment, que unia perfeitamente o viés melódico com a festança sonora. E, claro, os discos do Slash com sua banda têm se destacado nesse cenário, resgatando aquele frescor oitentista do subgênero.

O grande trunfo dos Conspirators em mais um grande disco é justamente abusar dos elementos que conhecemos, requentá-los e nos vender como algo fresco. Há quem diga que eles não passam de um Guns N’ Roses melhorado, ou quem simplesmente não veja méritos na banda por apresentar esse semelhança com a antiga banda do Slash. Contudo, é necessário ressaltar que o que faz Living The Dream uma ótima experiência auditiva é a união dos talentos que compõem a banda e um som que já ouvimos várias vezes abordados de, pelo menos, cinco pontos de vista diferentes ao mesmo tempo. Para quem adora a farofada dos anos 80, eis uma boa opção.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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