Os erros e acertos de Lenny Kravitz em “Raise Vibration”

Lenny Kravitz – Raise Vibration (2018)

Por Gabriel Sacramento

A discografia do Lenny Kravitz tem uma grande virtude, que em muitos momentos pode se tornar também um grande pecado: as misturas de gêneros que ele faz. Para Kravitz, estilos musicais devem trabalhar juntos para o bem do conceito do artista, ou seja, eles devem ser as ferramentas do músico, e não o contrário. No entanto, essa visão musical pode facilmente se tornar um fardo quando o artista se vê obrigado a mesclar diversas vertentes em tudo que faz, como se, em vez de servir aos gêneros isolados, servisse às miscelâneas deles. 

É verdade que ultimamente o radar do Kravitz tem captado muitos menos referências do que já captou ao longo desses mais de 30 anos de carreira. (Mesmo com todas as referências que explorou, Lenny sempre se mostrou imbatível quando misturava rock e funk, no estilo Paulo Mendonça e Richie Kotzen.) Strut deixou claro que o artista agora está preferindo focar em rock, soul e funk — que pode parecer muito, mas definitivamente não para o Lenny. O disco anterior era ótimo e cheio de canções fortíssimas como “New York City” e “Frankenstein”. O disco de 2006, It’s Time For A Love Revolution, e Baptism (2004) são outros bons álbuns, só que focados no rock.

Raise Vibration segue nas mesmas pegadas de Strut, mas com mais estilos sendo adicionados na mistura. A produção é dele mesmo como sempre. E seu grande acerto é justamente focar no instrumento que toca junto com Vincent Pasquier e Marthe Moinet: o baixo. Quase todas as faixas colocam o instrumento como centro estratégico, com as linhas de baixo servindo de motivos para elas. “It’s Enough”, por exemplo, possui a linha de baixo mais forte e marcante que ouvi esse ano, que me lembrou “Ascension” do Maxwell e o estilo de tocar do James Jamerson. A faixa é centrada na linha, que é desenvolvida com folga, inclusive com vocais seguindo as mesmas notas em uníssono em alguns momentos.

Com isso, boa parte do disco segue uma linha mais funkeada, com stacattos e dimensões rítmicas bem desenvolvidas. Kravitz também brinca com o rock na faixa-título, que tem uma estrutura sensacional: uma seção com voz e guitarra é seguida de outra com vários instrumentos em uma progressão catártica de acordes, até que, no final, as duas seções são combinadas. É um dos poucos momentos roqueiros do álbum e funciona muito bem, lembrando os velhos tempos de funk rock dos tempos gloriosos de quando ele surgiu.

Entretanto, Kravitz erra quando decide trabalhar mais estilos na sua fórmula. Quando tenta algumas referências psicodélicas, acaba se atrapalhando e desenvolvendo de forma medíocre; ou quando investe em baladas, como a terrível “Here to Love”, que distrai o ouvinte já engajado com o álbum. “Johnny Cash” é uma bagunça em termos de estrutura e referências, com repetições desnecessárias e cafonices melódicas. Ou seja, o mesmo Lenny produtor que define o funk e o baixo como nortes, se rende à necessidade de variar e trazer outras vertentes para complementar o disco e falha.

Mas, justiça seja feita: esse é ainda um dos discos mais centrados do Lenny, em que ele deixa claro um alvo e se esforça bastante para atingi-lo em cheio. Só que faltou formatá-lo melhor e cortar pontas soltas. Diante de tudo isso, a conclusão é que Raise Vibration é o seu disco mais fraco em anos, mesmo que tenha bons momentos. Se encarar as canções em separado, você consegue degustá-lo melhor, o problema é que é difícil esquecer os vacilos.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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