“Runaway” do Passenger é cheio de energia e poeira de estrada

Passenger – Runaway (2018)

Por Gabriel Sacramento

Runaway já começa com a voz esquisita do Mike Rosenberg sozinha, sem tensão e polimento, iniciando “Hell or High Water”.  A mesma voz que conquistou o mundo em 2012 com “Let Her Go” e chamou a atenção de todos para o seu trabalho. A discografia tem chegado a resultados cada vez mais sólidos ano após ano: Whispers II (2015), Young As The Morning, Old As The Sea (2016) e The Boy Who Cried Wolf (2017) confirmam isso e atestam que o cantor é uma autoridade no tipo de som que se propõe a fazer.

O disco novo, lançado no mesmo mês do anterior, segue uma leve mudança de direcionamento na musicalidade do Mike: um som mais voltado para o gênero Americana, que une tendências do folk, bluegrass, country e roots rock. Ou seja, um disco repleto de guitarras lap steel, banjos, bandolins e violões. A produção do novo trabalho é novamente dele e do colaborador dos últimos cinco trabalhos, Chris Vallejo.

Assim como nos anteriores, a produção trabalha a sensação de estabilidade e tranquilidade, mas consegue isso com uma instrumentação bem definida, de banda completona mesmo, com todos os instrumentos exercendo funções específicas e de mãos dadas. A proposta foi fazer algo que refletisse musicalmente as viagens que o Passenger fazia com o pai rumo aos Estados Unidos quando criança, por isso, é um disco cheio de poeira da estrada, desses perfeitos para um trajeto de carro no fim da tarde. O grande trunfo do produtor é conseguir desenvolver lentamente esse clima sem sacrificar a essência das canções, e exaltando suas qualidades.

De início, percebemos de cara um som mais intenso e expansivo que o dos álbuns anteriores, principalmente o The Boy Who Cried Wolf. Aqui, Passenger raramente alude ao piano ou à algum instrumento isolado como forma de expressão; o coletivo importa muito mais nesse contexto e é o que leva o disco a um nível superior de qualidade, extraindo empatia do ouvinte. O cantor descreve suas histórias de vida como em “Hell or High Water”, na qual reflete sobre um término recente de relacionamento e discute a sociedade moderna das novas tecnologias sociais e dos problemas decorrentes delas na ótima “Survivor”.

Anos atrás, quando dei o play pela primeira vez em um disco do cantor britânico, fiquei surpreso porque sua voz é bem estranha e peculiar. No entanto, ao longo dos seus discos, Passenger consegue inserir a voz dentro do contexto de uma forma tão jeitosa, com interpretações dedicadas e sóbrias, que acabamos nos acostumando e sua voz se torna familiar. É mais ou menos como o que o Bob Dylan conseguiu com sua voz difícil. Costumo ser um grande refutador dessa ideia de que cantores precisam ter vozes “bonitas” ou, pelo menos, os atributos tidos como desejáveis para alcançar o sucesso. Pelo contrário, Passenger é uma prova de que com uma voz mais ríspida e não tão agradável, é possível, sim, chegar a um bom resultado.

Para efeitos de comparação, Runaway me lembrou muito o This Ain’t New York (2017) do Mercy John, um disco que também confundia folk, country com rock de uma forma madura e altamente inspirada; e também me remeteu ao último trabalho do Third Day, o Revival (2017), que resgatou diversas faces da tradição musical americana e exaltou o país. Enxergo Runaway como parte de uma trilogia composta por esses álbuns, tradicionalistas e nacionalistas, mas também aconchegantes e simpáticos com os estrangeiros.

As melodias maravilhosas, os arranjos precisos e os climas serenos de Runaway comovem o mais petrificado coração. Se os registros anteriores do Passenger eram mais solitários e tristes, esse anuncia um tom mais alegre e festivo, mas mantendo a mesma coerência que marca a sua carreira desde o início. Um disco para momentos especiais, mas também um disco tão bom que transforma qualquer momento em que você se dedicar a ouvi-lo em especial.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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