Paul McCartney mistura o moderno e o essencial em “Egypt Station”

Paul McCartney – Egypt Station (2018)

Por Gabriel Sacramento

Paul McCartney, 76 anos, com o fôlego de um músico jovem, desbravando caminhos e buscando novas possibilidades de expressão. Depois dos Beatles, das diversas bandas que vieram depois e dos inúmeros experimentos malucos na carreira solo, o britânico chega a esse ponto da carreira com muita segurança e autoridade, mas também vontade de renovação. Afinal, o grande barato da música é justamente esse: buscar formas novas de reorganizar os mesmos elementos e extrair soluções criativas da imaginação.

Para o novo disco, McCartney recrutou o Greg Kurstin, produtor renomado que trabalhou recentemente com o Foo Fighters no fraco Concrete and Gold (2017) e com o Beck no Colors (2017). Kurstin acrescenta ao estilo do Paul um pouco mais de vitalidade jovial e de modernidade, mas sem suprimir a genialidade e a excelência tradicional de sempre. O produtor também conseguiu ajudar o cantor a explorar diversas facetas dele mesmo: um Paul mais divertidão, um Paul mais sofisticado e, claro, o Paul que adora experimentar. Assim como a variedade cromática da arte da capa do álbum, Kurstin e Paul buscaram uma variedade interessante de cores musicais para o trabalho.

O Paul divertido se apresenta e aperta a mão do ouvinte com toda a educação britânica em “Come On To Me”, a faixa-chiclete do disco com um refrão fácil de aprender e de acompanhar. A letra é o velho Paul se imaginando nos anos 60 chegando em alguém numa festa. “Happy With You” e “Fuh You” — a única produzida por Ryan Tedder ao invés de Greg Kurstin — também é o Paul feliz e pop, aludindo a uma linguagem musical e lírica que dialoga diretamente com o pop dos jovens de hoje. “Back in Brazil” é repleta de eletronicidades bem moderninhas e um ritmo mais forte, com percussões ao fundo, e um certo senso de tropicalismo que é combinado com uma solenidade musical impressiva. A música fala de uma garota que vive no Brasil e sonha “com um mundo melhor no futuro”. (Nada mais atual do que isso entre nós, brasileiros, no momento.)

O britânico é e sempre foi um compositor de mão cheia. Aqui, ele mostra que mantém um repertório rico de acordes dissonantes e escolhas harmônicas sofisticadas, demonstrando estilo ao utilizar inversões harmônicas e empréstimos modais para enriquecer as composições. Com isso, Paul fica livre para explorar diferentes opções de fluxos melódicos e trabalhar vozes em consonância como nos velhos tempos de quarteto com George Harrison, Ringo Starr e John Lennon. Os arranjos do álbum conseguem dosar a complexidade de ideias incríveis com a simplicidade do pop, como se passassem por um filtro que traduz o foi escrito para um som mais facilmente compreensível.

“Despite Repeated Warnings” é o Paul experimentando livremente com a estrutura. A canção começa melancólica, com harmonias vocais e piano marcante, mas no meio sofre uma mudança brusca para algo mais roqueiro que evolui a cada seção como uma canção progressiva mesmo. A música soa como se o Paul estivesse viajando por diversos lugares e cada seção nos mostra um vislumbre de cada um. “Hunt You Down/Naked/C-Link” também é marcada por essa experimentação que mistura minicanções em uma, com conexões abruptas entre elas.

Paul utiliza menos a guitarra e investe mais em outros instrumentos para evitar a obviedade. Por isso, é possível ouvir, por exemplo, violões executando bases e riffs que normalmente seriam tocados por uma guitarra. A produção do álbum ajuda a criar essa riqueza de possibilidades instrumentais que deixa o conjunto ainda mais rebuscado. Outro fator que deve ser destacado é a ótima interação entre as bases instrumentais e as vozes, com diversas rimas sonoras e esquema de perguntas-e-respostas.

A mixagem foi assinada por Mark Stent, mixer que tem no currículo discos como Divide (2017) do Ed Sheeran, o homônimo do Harry Styles e How Big, How Blue, How Beautiful (2015) da Florence and The Machine. Seu trabalho fornece uma paleta diversa de timbres e de opções sonoras como peças em um grande quebra-cabeça. Cada faceta parece ter uma identidade sonora própria: as faixas mais felizes são brilhantes com mais energia; as baladas são mais abafadas e nubladas; e os momentos mais roqueiros são intensos e secos.

Desgaste parece que é uma palavra que não existe no dicionário do cantor. Da sua voz à forma como toca, exala vigor, força e um brilhantismo musical que nem parece que vem de alguém que já gastou muito de sua energia criativa na longínqua década de 60. Depois de ajudar a revolucionar a música, ele colhe os frutos do que inventou e revoluciona a si mesmo a cada novo disco.

Como disse em minhas previsões em um texto no Medium, o disco realmente soa mais aberto e expansivo. McCartney trocou os quatro grandes produtores de New (2013) por Kurstin, mas conseguiu um som multifacetado que pode ser colocado em paralelo com o anterior. Egypt Station é, no entanto, ainda mais surpreendente, com um senso de inovação e de engenhosidade nas ideias e na concepção de som que supera o anterior. Além disso, mistura o essencial com o moderno como ele nunca tinha feito na carreira. Paul chegou tão longe e continua extremamente relevante. Quem não quer envelhecer como ele?

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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