“Kamikaze” é o Eminem cada vez mais comum e menos surpreendente

Eminem – Kamikaze (2018)

Por Gabriel Sacramento

Tenho uma teoria sobre o Eminem: ele se encontra cada vez mais preso em uma “bolha de lugar comum”, que o impede de fazer vôos altos e sufoca sua musicalidade. Isso porque, ao contrário de tantos outros rappers e artistas no geral, o americano não está sabendo lidar muito bem com o amadurecimento. No começo da carreira, ele surgiu polêmico e contestador, gritando por uma atenção que conseguiu facilmente, considerando também a menor concorrência que existia no mercado de então. O discurso era forte, a música também, e tudo funcionava, desde o rapping ao flow e beats. Atualmente, o cantor segue colecionando discos normais, que não conseguem nem chegar perto da sombra do que já fez nos dias de glória.

Kamikaze foi lançado de surpresa, possui 45 minutos de duração e menos participações e menos nomes ultra famosos envolvidos. Ou seja, é meio que uma resposta dele mesmo ao grandioso Revival do ano passado. O cantor produziu o álbum, junto com Dr. Dre, seu empresário Paul Rosenberg e uma série de outros nomes. A capa é uma homenagem ao Licensed To III do Beastie Boys, de 1986.

E um dos produtores do álbum, o Illadaproducer, chegou a afirmar que Kamikaze é o glorioso retorno ao estilão Slim Shady. Uma coisa é fato: o discurso do álbum é totalmente contrário ao tom reflexivo e maduro de Revival. Aqui, o americano parte para uma série de críticas e brigas com outros rappers, além de demonstrar um certo ressentimento com o fato de que o último álbum não foi bem recebido pela crítica e pelo público.

Mas se você, como eu, acha que um álbum de rap não vive dessas tretas, deve estar curioso com relação à música. Pois bem, a melhor coisa do álbum são as participações: Joyner Lucas com um flow agressivo e contrito em “Lucky You”, Royce Da 5’9 com um flow pausado eficiente, beneficiado pela boa rítmica, em “Not Alike” e Jessie Reyez em “Nice Guy” e “Good Guy”. Os rappers que contribuem estão muito bem, impondo o estilo e a marca de cada um, e a simbiose com o Eminem faz boa parte do álbum funcionar bem aos ouvidos.

Quando Em está sozinho, o álbum perde consideravelmente sua força e sua capacidade de surpreender. Com boas exceções como “The Ringer”, faixa que abre o play — na qual ele acerta na interpretação, jogando vários tipos de flow no caldeirão —, as faixas se perdem entre bases que não determinam uma direção segura e intervenções melódicas desinteressantes. Quando foca em uma de suas características mais marcantes, o flow super rápido e ágil, ele acerta, contudo, isso nem sempre conquista o ouvinte como fez em “Rap God” e em momentos de Revival, por exemplo. Kamikaze é bem menos pop que o anterior, mas não perde a oportunidade de fazer proselitismo com seus coros melódicos raquíticos.

O mundo do rap atual é outro, bem diferente daquele de 2000, quando Eminem surgiu no horizonte. Atualmente, temos uma diversidade absurda de iniciativas dentro do gênero, de artistas semelhantes e de artistas diferentes, que estão sempre inovando na linguagem e na atitude. Hoje temos Kendrick Lamar, com seu rap de forte relevância social que envereda pelo jazz e ganha pulitzer; temos Joey Bada$$, que utiliza uma linguagem mais crua e urbana para vociferar contra o racismo; temos os invencionismos do PRhyme; e o Kanye West experimentando com durações menores e letras mais confessionais. Ou seja, o rap game ganhou novos patches, e os consumidores hoje estão bem diferentes também. Se Kamikaze é o Eminem voltando ao estilo e irreverência de antes, talvez o mundo simplesmente não esteja interessado mais naquele estilo.

Como pontuei na crítica de Revival, o amadurecimento trouxe uma mudança na personalidade do rapper, e mesmo que ele tente forçar um retorno ao que era antes, enfrenta a barreira da falta de espontaneidade no meio do caminho. Enquanto isso, ele segue atirando na bolha e assiste ela se tornar cada vez maior.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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