“Vicious” do Halestorm é viciante, sim, mas no mau sentido

Halestorm – Vicious (2018)

Por Gabriel Sacramento

Já são quatro álbuns, e toda vez que eu ouço Halestorm, eu só consigo pensar em uma coisa: Lzzy Hale é uma excelente cantora e carrega a banda nos ombros com suas performances magnéticas. Ela segue muito bem como líder da banda, sendo uma das vozes femininas mais interessantes no metal atual, e a banda segue dependente de tudo o que ela dita. Se é isso é bom ou ruim, depende.

Vicious, o quarto trabalho do quarteto, foi produzido pelo veterano Nick Raskulinecz, que recentemente apareceu por aqui na crítica de Rainier Fog do Alice In Chains. Assim como disse naquele texto, admiro a capacidade de Nick de produzir bandas de rock/metal, resgatando a energia e crueza como aspecto principal, mesmo que não suprimindo outros elementos vitais como a linguagem melódica das faixas. A mixagem do novo disco também é de um cara super conhecido, Chris Lord-Alge. Os dois trabalharam juntos no Audio Secrecy, álbum de 2010 do Stone Sour. Chris mixou todo mundo de Joe Cocker à Slipknot e Bullet For My Valentine, inclusive todos os outros álbuns do Halestorm, menos Into The Wild Life (2015).

Ou seja, o time técnico, que ainda conta com Ted Jensen na masterização, é muito bom. Já a equipe de músicos está entrosada, sendo basicamente a mesma que gravou o homônimo há quase dez anos. Por isso, Vicious até começa bem, acertando em suas primeiras músicas: “Uncomfortable” é imbatível, com Lzzy Hale cantando por mais liberdade para as mulheres falarem do que quiserem e uma sonoridade festeira que convence totalmente o mais cético dos ouvintes; “Buzz” também é certeira e “Conflicted” dá uma pausa na sujeira, mas mantendo a boa capacidade de atração.

É incrível notar como Lzzy Hale continua sensacional no seu posto. A flexibilidade de suas performances, da sua voz e da forma como ela trabalha técnicas como o drive, misturado com o controle que tem da própria voz é impressionante. Rebeldia, ingenuidade, agressividade, energia, sensualidade e contrição: tudo está lá nas suas interpretações, bem fácil para o ouvinte captar e entender. O aspecto adolescente do som da banda se deve ao fato de que ela consegue misturar em uma música personas de diferentes idades, de uma forma meio katenashiana. A americana consegue engrandecer as canções e chamar toda a atenção para si. Destaco em especial “Heart of Novacaine”, com uma interpretação comovente, na qual, ela controla com precisão o nível de explosão da sua voz e guarda para os momentos certos. É justamente o que caracteriza uma boa interpretação: saber quando aplicar as técnicas para que não se torne histrionismo.

Contudo, um dos problemas do disco é justamente o fato que geralmente me agrada nas produções do Nick Raskulinecz: as guitarras. Em Vicious, o instrumento está sempre presente, conferindo contornos agressivos, mas sempre subalterno, tímido, sem ousadia e coragem para falar. O produtor não desenvolve muito bem as seções instrumentais, e os riffs servem somente para cumprir sua função dentro da estrutura das faixas, sem captar devidamente a atenção do ouvinte. Isso começa a pesar, principalmente na segunda parte do álbum, quando, mesmo curtindo a voz da Lzzy Hale, o ouvinte se pega um pouco cansado do caráter performático das faixas, sempre muito centradas nas vozes. Logo sentimos falta de uma seção instrumental mais desenvolvida e de um pouco mais de autonomia dos instrumentos. Apesar de tudo, vale destacar que Raskulinecz e Lord-Alge criam energia de uma forma orgânica que é fundamental para que o ouvinte compre a proposta do álbum.

Vicious perde a oportunidade de ser realmente viciante e se torna um disco barrigudo e desgastante, que não dá saídas ao ouvinte. De certa forma, é o aspecto negativo de algo que é viciante. A banda precisa, urgentemente, explorar mais talentos além do da sua cantora.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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