“Negro Swan”, do Blood Orange, é terrivelmente sensacional

Blood Orange – Negro Swan (2018)

Por Gabriel Sacramento

Sempre digo que todo músico, ou pessoa que quer entender música profundamente, precisa estudar quem que já faz isso há anos e é referência. Ou seja, você precisa de um mentor, estando ele próximo de você ou não. E, assim como professores e diretores de cinema sempre dizem sobre ver filmes, acredito que uma das melhores formas de estudar música é ouvindo bons álbuns. Estudar teoria é fundamental, execução também, mas para entender como as coisas são feitas em estúdio e como pode-se chegar a resultados incríveis tendo como base apenas doze notas, é recomendado que se consuma muita música de qualidade. Coisas que estão se destacando por aí, principalmente.

E foi exatamente assim que Devonté Hynes moldou seu caráter musical. Até hoje, o britânico de 32 anos continua se baseando em suas referências e vai para o estúdio tentando recriar elementos que prendem sua atenção nessas obras. Negro Swan é seu quarto disco sob a alcunha de Blood Orange, sendo a sequência do elogiado Freetown Sound de 2016. Hynes continua brincando com o que podemos chamar de R&B alternativo, mas sem nunca se limitar a gêneros: a proposta é impor seu próprio estilo.

Para isso, ele mesmo assina a produção de seus discos e coordena o conjunto de colaboradores. Também toca o máximo possível de instrumentos, com apenas alguns overdubs e detalhes específicos sendo complementados por outros músicos. O resultado? Uma produção que trabalha muito bem o minimalismo, construindo canções que parecem uma mistura de fragmentos e cuidando muito bem da forma como cada seção desagua em outra. É interessante compreender como Dev Hynes pensa suas músicas: se em um arranjo tradicional, com fórmula pop, temos uma estrutura rígida com seções bem definidas e uma sequência bem definida, na música do Blood Orange, temos seções fluídas e líquidas que não necessariamente estão conectadas entre si, fortalecendo um senso incrível de experimentalismo que perpassa todo o trabalho.

É interessante notar como ele pensa a instrumentação também: mesmo sendo um bom guitarrista, Hynes não se limita ao instrumento, mas trabalha com teclados, bateria, baixo e até saxofone. Os instrumentos não têm função fixa, nem uma hierarquia forte entre eles, mas dependem do imaginário do produtor para serem utilizados em favor do clima. É comum, por exemplo, que uma música comece com determinado instrumento e este pare de tocar do nada no meio do arranjo. Justamente porque, para Hynes, os instrumentos são dispensáveis, mas o efeito gerado por eles ficam e formam a ambiência de que ele precisa. E aqui, ele brinca os instrumentos, levando-os ao limite: como a guitarra totalmente desafinada no meio de “Charcoal Baby” contrastando com o baixo e com as vozes — uma sacada genial.

É um disco fortemente climático e simples. Temos sempre a impressão de que o cantor parte de ideias pequenas para construir suas canções e pensa sempre em poucas coisas na hora de arranjá-las. Ou seja, ele não cai na grandiloquência de outros artistas que tentam atingir o mesmo som, com uma caixa de efeitos lotada ou abusando dos poderes da mixagem. “Holy Will”, que tem a voz de Ian Isiah, é um cover do grupo gospel Clark Sisters, e boa parte da faixa é baseada na voz e na guitarra somente. Aliás, sobre as participações, é interessante notar como Hynes concede o foco para os convidados, chegando até a diminuir o volume da instrumentação base para que conheçamos quem está em primeiro plano, como no meio de “Runnin’”. Na lista de colaboradores constam nomes como Steve Lacy (The Internet), Georgia Anne Muldrow e Aaron Maine, o cara que comanda o Porches.

Seu som pode ser comparado com o The Internet, que nesse ano lançou o ótimo e viciante Hive Mind. Contudo, este é um pouco mais pop e segue mais padrões. O britânico, por sua vez, rejeita as convenções e faz com que o ouvinte compreenda que o único padrão que ele quer impor é que não há necessidade de padrões. Em seus discos, Hynes sempre aponta para si mesmo e para a forma muito pessoal como costura os retalhos sônicos.

O músico afirmou que o disco é sobre a condição mental dos negros, que ele chamou de black depression. O disco passa por histórias acerca de traumas de infância do cantor, que era frequentemente espancado e sofria bullying, lidando também com questões de sexualidade e o conceito de família. Hynes coloca alguns pequenos discursos em interlúdios, introduções e outros das faixas, com convidados como Janet Mock, escritora/diretora/ativista americana, recitando-os de forma bem espontânea e intimista.

Dev Hynes é o arquiteto de uma sonoridade muito específica, gentil e delicada, viajante e levemente psicodélica. Mas também é o cientista, misturando fórmulas, subvertendo padrões e chegando a resultados inesperados e eventuais explosões de laboratório. Negro Swan é mais um capítulo da sua carreira brilhante e rica, na qual, ele nos surpreende com seu estilo e sua vontade de inovar. Um daqueles discos indispensáveis para quem quer aprender como se faz música.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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