No “Em Trânsito”, Lenine mistura o novo, o velho e a elegância de sempre

Lenine – Em Trânsito [Deluxe] (2018)

Por Gabriel Sacramento

Lenine embarcou em uma proposta ambiciosa: montar primeiro um show e, então, gravar e lançar como um CD. Ou seja, das composições direto para o palco, sem ir para o estúdio, como o convencional. O cantor disse que estava cansado da mesmice do processo de concepção de álbuns e resolveu fazer diferente dessa vez. Tinha lançado a versão resumida, com dez músicas, nas plataformas digitais e nas lojas, e, neste mês, lançou a versão deluxe com todas as músicas do show — seis inéditas e quatorze de outros álbuns.  

O mais interessante é que a vontade de abordar de uma forma diferente vai do processo de gravação à música propriamente dita. No show, o pernambucano repaginou as canções antigas e garantiu a coesão com as novas. A proposta sonora, que teve direção do seu filho Bruno Giorgi, segue uma veia mais elétrica, diferente da tranquilidade e estabilidade de sua abordagem mais comum calcada nos violões.

O próprio cantor disse em entrevista que queria se divorciar um pouco do instrumento e buscar alternativas diferentes de expressão. Felizmente, seu filho soube muito bem coordenar o processo de transformação das faixas antigas e conseguiu um resultado intrigante, reorganizando os elementos antigos e tratando-os com uma abordagem mais modernosa. “Lá Vem A Cidade” é uma das canções revisitadas que ganhou uma versão cheia de sons naturais e uma tensão crescente que parece sorrateira e até mesmo um pouco sombria. “Que Baque É Esse” perdeu sua bordas de violão e, assim como a primeira citada, ganhou uma forte característica de tensão e instabilidade, que nos faz entendê-la de uma forma totalmente diferente. Os metais permanecem ótimos como na versão de 97, fazendo inteligentes interrupções no arranjo e elevando o todo para uma dimensão harmônica estratosférica.

Marcada pelo groove e pelas síncopes, “Intolerância” é uma das canções novas. Em seu DNA está a proposta que sempre foi a cara do Lenine: misturar uma linguagem mais acústica e seca com o forte batuque da música nordestina. Aliás, síncope é o segundo nome da sensacional “Sublinhe e Revele”, que brinca com guitarras ousadas, um groove imbatível fortalecido pelos instrumentos da cozinha e palavras quase homófonas no refrão. Há de se destacar também a sofisticação harmônica desta, com acordes dissonantes que favorecem a tensão nos versos e conduzem o ouvinte à resolução tardia no refrão — um bom casamento entre as funções da harmonia e lógica do arranjo. “Ninguém Faz Ideia” ganhou uma versão mais intimista, ao violão, e é outro dos pontos altos do show. Ela deixa claro que a proposta do Lenine não foi de deixar tudo simplesmente guitarreiro, mas, sim, de subverter o que já tinha feito.

Além das duas citadas no parágrafo anterior, as novas são: “Leve e Suave”, “Ogan Erê”, “Bicho Saudade” e “Umbigo”.

Giorgi soube também trabalhar as características e vantagens da boa banda que acompanha o Lenine no show: ele mesmo e JR Tostoi nas guitarras, Pantico Rocha no sintetizador, Guila no baixo e participações de Amaro Freitas (piano), Carlos Malta (saxofone) e Gabriel Ventura (guitarra). Um timaço de músicos muito bem ensaiados que contribuem com momentos de destaque sempre que podem, engrandecendo o todo. “Sublinhe e Revele”, por exemplo, uma música extremamente complexa em termos de ritmo e harmonia, é tocada com tanta naturalidade, organicidade e destreza, que faz o ouvinte entrar em uma espécie de êxtase musical.

Dono de um lirismo embasbacante — herdado diretamente de outras grandes mentes da nossa música popular —, o cantor conversa, desconversa, complica, simplifica e faz das palavras suas ferramentas, brincando com elas e buscando novos significados para as mesmas. Em “Intolerância”, ele personifica essa qualidade negativa que insiste em dar as caras sempre que pode, principalmente na atualidade com as discussões acaloradas em redes sociais; já em outras, o cantor explora os regionalismos do seu estado e região para expressar sua identidade e reafirmar sua origem. Lenine usa suas ferramentas para desenvolver engenhocas grandes, desajeitadas e esquisitas, daquelas que podem parecer difíceis de serem vendidas no mercado, mas que sempre impressionam por terem sido desenhadas com tanto esmero por alguém dotado de uma capacidade artística descomunal.

É certo que Lenine nunca foi um músico fechado em uma caixinha de gêneros. Sempre foi marcado pelo anseio por renovação sonora e por uma identidade multifacetada. Por isso, Em Trânsito não é necessariamente uma novidade para quem já conhece o cantor. No entanto, por ser consistente em termos de qualidade, satisfazer plenamente a ambição e as expectativas, o projeto surpreende. Se Lenine queria deixar os fãs com água na boca para ver esse show, conseguiu facilmente. 

Foto: Divulgação

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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