Em “Marauder”, o Interpol apaga as luzes de novo e investe menos em melodias

Interpol – Marauder (2018)

Por Gabriel Sacramento

O Interpol é aquele tipo de banda que faz um disco absurdo de bom, arrasa-quarteirão com vários hits e tudo mais, e depois não consegue igualar o feito por mais que tente. Turn On The Bright Lights (2002) é igual aquela pessoa carismática que quando chega na roda de conversa faz todo mundo abrir um sorrisão — mesmo que seja um disco mais obscuro e quase gótico. O resto dos discos subsequentes tentaram chegar perto, mas sem sucesso. A cada novo lançamento, é impossível não comparar com o que eles fizeram em 2002.

O homônimo de 2010, que costuma ser bastante criticado, é mesmo ruim. E o problema dele é que naquele ponto, a banda tinha chegado em um estágio de presunção tão grande que recorreu a uma sonoridade redundante e sem sal. Se um dia, faltava luz ao som, e isso era muito bom, em 2010, passou a faltar cor também. Ou seja, essa presunção transformou a fórmula que um dia era muito interessante em algo extremamente chato. Já com relação a El Pintor, eu tendo a concordar com o amigo Lucas Scaliza, que escreveu a crítica em 2014 para o site: foi um resgate do bom jeito de fazer música. No entanto, sinto que ainda falta algo que a banda perdeu lá em 2002 e não conseguiu — e provavelmente não irá conseguir —  encontrar.

Uma das principais mudanças para Marauder foi o fato de que eles chamaram um produtor famoso ao invés de fazerem o trabalho sozinhos. Dave Fridmann é conhecido por trabalhar com o The Flaming Lips, mas também já trabalhou com Spoon, The Cribs e The Vaccines. Por isso, é fácil notar que o novo disco soa diferente em seu núcleo, principalmente no que diz respeito às melodias. Nos discos anteriores, eu tinha a sensação de que todo esforço do grupo era em evidenciar as melodias e conquistar o ouvinte pelo poder das mesmas. Em Marauder, não. O disco parece lidar com as melodias com um certo desleixo, desviando o foco mesmo para a atmosfera obscura e cheia de reverb e para a intenção agressiva. (Ora, não seria isso um leve retorno ao modus operandi de Turn On The Bright Lights?)

Além disso, Fridmann nos coloca no meio dos arranjos como um thriller nos coloca no meio do mistério: pegamos o carro já andando, sem parar para nos deixar respirar. O esforço é todo do ouvinte para compreender as faixas e o desenrolar do que ocorre. É interessante notar como as linhas de guitarra investem em notas longas — com vários riffs de uma nota só, por exemplo —, que geram uma sensação de estabilidade e segurança. Mas essa sensação encontra um contraste nos arranjos com divisões caóticas entre os instrumentos e na própria mixagem do Fridmann que trabalha um desequilíbrio de volume e frequências que desnorteiam o ouvinte. Por si só, essas duas características juntas já garantem o interesse do ouvinte até o fim.

Para quem procura por hits, pode ficar feliz em saber que os singles “The Rover” e “Number 10” se destacam bem no conjunto, podendo facilmente ser fortes candidatas à queridinhas dos fãs. “Stay in Touch” é marcada por um arranjo que parece prestes a explodir, mas nunca explode. E “If You Really Love Nothing” é uma abertura ótima, quase um cartão de visitas para que o ouvinte continue acompanhando o que eles têm a dizer no resto do play.

Quero destacar em especial o trabalho de Paul Banks e Daniel Kessler, que estão inspiradíssimos. Suas guitarras floreiam o álbum inteiro, com linhas recheadas de boas pontuações, licks e fills em diversas camadas. Os timbres das guitarras, desenvolvidos em parceria com Fridmann, também merecem menção: ensolarados e brilhantes, mas também flamejantes. A forma como o Fridmann trata a voz do Banks também é notável, enchendo ela de efeitos que mascaram a voz por trás das guitarras, com isso, algumas passagens ficaram mais robustas em termos de peso e as melodias vocais não ficaram tão proeminentes. As diversas camadas de instrumentação contribuem para o desenvolvimento do design de som marcante do disco, daqueles que formam uma “imagem” na sua cabeça depois de ouvir.

Marauder foge do clichê “retorno às origens”, mas consegue se vender como um disco que anuncia uma fase mais interessante na carreira deles daqui para frente. Mesmo que eles, a rigor, nunca tenham abandonado a identidade como o Arctic Monkeys e os Strokes fizeram, encontram formas de abordar a própria fórmula de forma diferente em cada disco. Marauder é um exemplo de quando a fórmula dá certo.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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