Alice In Chains mantém a boa forma com “mais do mesmo” pujante

Alice In Chains – Rainier Fog (2018)

Por Gabriel Sacramento

Quando vi que o Alice In Chains lançaria algo novo esse ano, logo pensei que a volta seria tão estilosa quanto a do Stone Temple Pilots no começo do ano. Mas, apesar das semelhanças, as bandas são bem diferentes e estão em momentos diferentes de suas carreiras: o STP, depois de enfrentar duas trágicas perdas de peças-chave, está tentando se reerguer com um vocalista novo; o AIC vem de uma crescente que começou em 2009, com o elogiado Black Gives Way To Blue, um disco que nos apresentou William DuVall como o novo frontman no lugar do sensacional Layne Staley. Ou seja, o STP ainda está recomeçando a vida, enquanto o Alice In Chains já tem uma caminhada com o novo cantor que tem resultado em coisas interessantes para nós, ouvintes.

Junto com DuVall, outro grande acerto foi estabelecer parceria com um produtores especialistas em metal pesado da atualidade, Nick Raskulinecz. Nick sabe, como poucos, produzir discos pesados com guitarras musculosas, trazendo-as para proeminência, enquanto coabitam com vocais mais melódicos. Vide o trabalho dele com o Mastodon, por exemplo. O produtor tem um currículo de dar inveja e tem somado bastante ao trabalho dos americanos de Seattle. Rainier Fog é o terceiro disco que eles mantém a parceria.

Como afirmaram em uma entrevista, o disco é pesado e combina partes bem feias com resquícios de beleza. Mas, acima de tudo, para tranquilizar os fãs: é um disco do Alice In Chains que nós queremos ouvir. Raskulinecz soube manter a essência intacta, com direito à momentos nostálgicos, mas ainda assim não limitando a banda somente ao passado. Ou seja, há abertura para tendências mais modernas.

As harmonias marcantes e tristes entre DuVall e Jerry Cantrell continuam vivas, bem como os andamentos arrastados e uma veia dark, que lembra o estilo dos Melvins. As guitarras musculosas — realçadas pela senhora mixagem do Joe Barresi — , os riffs atonais, afinações mais baixas e os arranjos longos e uniformes, calcados na guitarraria, sem muito dinamismo. Mas, além dessas características, a banda experimenta com sete minutos de duração e guitarras limpas em “All I Am”, sempre com foco na atmosfera cheia de névoa e com um quê dos anos 90.  

O mais interessante é que, mesmo depois de todos esses anos, eles continuam em boa forma com essa identidade sonora. Faixas que duram muito para os padrões normais, sem viradas desesperadas para gerar ritmo, mas que nunca cansam o ouvinte, pois é justamente isso que esperamos da turma do Jerry Cantrell e William DuVall. O mais do mesmo da banda continua funcionando muito bem, honrando a ideia de que o tempo deixa tudo melhor. Nesse caso, não estamos diante do melhor disco da banda ou de nada próximo disso, mas só por estar soando tão bem, já é um mérito.

Rainier Fog é um pouco menos agressivo que o anterior, The Devil Put Dinosaurs Here (2013), porque nesse novo o foco parece ter ido mais para o clima. No entanto, nada se perde em termos de retórica: assim como o anterior era um grande argumento de 67 minutos que convencia completamente o ouvinte, esse novo não deixa dúvidas acerca da boa forma dos sobreviventes do grunge.

Nas letras, a banda não deixa de prestar tributo à cena de Seattle na faixa-título, ao Chris Cornell em “Never Fade” e ao David Bowie em “The One You Know”.

Enquanto ouvia, me perguntei se o Soundgarden vai conseguir, assim como o STP e o AIC, sobreviver a perda de seu frontman. Logo depois, cheguei à conclusão de que o Soundgarden dependia muito mais de Chris Cornell do que o AIC dependia de Layne, já que Jerry Cantrell segurava — e segura — as pontas muito bem. Para o SG, a tarefa é muito mais difícil, portanto.

Rainier Fog é mais um capítulo que atesta a longevidade de uma banda que, muitas outras, surgiu na onda de Seattle sem saber se iriam sobreviver o próximo dia. Com um som para nenhum fã de grunge, nem de metal, colocar defeito, o Alice In Chains segue pregando para os convertidos e surpreendendo os curiosos que ainda não foram convencidos da mensagem.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Comentários

    Ejaculador

    (24 de agosto de 2018 - 20:51)

    O disco não é ruim. Isso é fato!
    Mas ele não chega no nível dos Preto-Azul (2010) e nem dos Dinossauros (2013), que são albuns que superam inclusive discos dos anos 90 da banda.

    Acho que tem o ponto positivo da evolução e a aposta em músicas mais rápidas que a banda ainda não tinha feito em seu retorno: “Rainier Fog” e “Never Fade”. Músicas com esse BPM ficaram lá nos anos 90 com “Again”. Nisso, pontos muito positivos: resgatar músicas de compasso mais ligeiro.

    Como ponto negativo, algumas músicas ficaram muito difusas e não chamam muito a atenção. Vc precisa se esforçar pra prestar atenção. “Red Giant” é boa, mas é exatamente isso: vc começa escutar no carro, academia e em casa … e já tá pensando em outra coisa. Ela não te prende, apesar de ser boa. “Drone” é um blues legal, mas agrada mais o fan metaleiro do que o grunge. “Deaf Ears Blind Eyes” eu acho a pior do disco e ela começa sem propósito e termina do mesmo jeito: sai do nada pra lugar algum. Não consegue captar o ouvinte.

    “Fly” tem a melodia boa, assim como “Maybe”. “All I Am” é boa, mas poderia ter construções que explorassem mais outras texturas. Ela é enorme pra ficar só na mesma. “So Far Under” repete a fórmula de “Phantom Limb”, que era a melhor canção do último disco. Ficou bom. Mas não façam uma 3ª música igual, se não vira cover de si mesmo ou um Pearl Jam da vida.

    Minha maior dúvida; pq o Jerry Cantrell lançou “Setting Sun” como single da OST DC’s Dark Nights: Metal Soundtrack sendo que se encaixaria muito bem dentro do disco e ainda seria das melhores canções do album?
    Foi um desperdício tirar essa música do disco.

    Nota 11 de 10 = Black Gives Way to Blue (2009)
    Nota 11 de 10 = The Devil Put Dinosaurs Here (2013)
    Nota 6 de 10 = Rainier Fog (2018)

    Não é um disco ruim, mas também não é aquele superdisco do AIC que vc vai escutar depois que 2018 passar.
    É assim como o disco de 1995.

      Gabriel Sacramento

      (28 de agosto de 2018 - 08:49)

      Olá, ejaculador, legais suas impressões. Nisto, concordamos um pouco: achei levemente inferior aos anteriores também. Mas ainda assim, muito empolgante.
      Abraço!

      Neto

      (30 de agosto de 2018 - 21:08)

      É um disco pra ser absorvido aos poucos, precisa ouvir várias vezes prá entendê – lo melhor. Nas primeiras audiçoes nao gostei muito (assim como os anteriores), porém agora ja acostumei – me. Também acho inferior aos 2 anteriores com o Duvall, mas dou nota 08 pra ele.

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