Gustavo Bertoni explora diversas linguagens sonoras em novo disco solo

Gustavo Bertoni – Where Light Pours In (2018)

Por Gabriel Sacramento

Prosseguindo na sua saga solo, Gustavo Bertoni finalmente liberou o sucessor de The Pilgrim, de 2015. Sua carreira solo segue o modelo clássico: em que o artista explora linguagens diferentes que geralmente não cabem no universo da sua banda original e experimenta livremente sem podar suas ideias. Por isso, Bertoni segue sem se restringir a um gênero somente, mas explorando basicamente o folk, o rock e o blues.

O cantor chegou a publicar a influência do que ele chamou de roots rock para o som do álbum, mas essa sonoridade encontra-se, de certa maneira, diluída no álbum. Com o produtor Samyr Aissami, que também tocou bateria, o vocalista viaja para quando o rock ainda não era tão elétrico quanto hoje e acha o ponto de encontro entre o folk, o blues e esse rock mais acústico, de intenção. No entanto, o disco é menos intenso e seco que outros discos que eu categorizaria como roots rock, como é o caso dos álbuns do Fantastic Negrito.

Foto: Breno Galtier

A produção de Aissami acerta ao manipular bem as diversas partições do Gustavo aqui, dando a impressão de que o cantor realmente se encontra nessa divisão. A luz do título parece servir para quebrar sua identidade musical em pedaços, no melhor sentido da expressão. O produtor consegue muita coesão entre as referências e as vírgulas sonoras, além de manter o disco classudo e sisudo na medida certa. Where The Light Pours In é contemplativo e intimista o tempo inteiro.

Temos faixas completamente dedicadas ao folk como “Bluebird” e “Be Here Now”, outras que trabalham a dicotomia entre um folk moderno e o rock aos moldes Lucy Dacus mesmo, como “Vain”. “Snake Charmer” se assume blueseira desde o início, com uma guitarra flamejante, timbrada como se estivesse prestes a explodir a qualquer momento. “Apathy Dance” é extremamente instável no seu arranjo, com momentos limpos sendo sucedidos de momentos mais cheios que lembram o Magnetite (2017) do Scalene.

Bertoni gravou violões, guitarras, baixos e teclados, deixando somente percussões para o seu produtor. Seu trabalho como instrumentista é irrepreensível, já que ele consegue navegar pelo universo de cada instrumento e trazer o melhor de cada um para a proposta do disco. As guitarras contribuem com efeitos diversos e uma palhetada que vai da imponência ao simplesmente tocar um acorde (como no minuto 0:56 de “Vain”) à delicadeza de dedilhados lentos e demorados. O baixo é seguro, preenche espaços e está ritmicamente bem relacionado com a bateria.

O cantor está cada vez melhor na sua principal atividade: utilizar sua voz. Ele brinca com uma voz mais cadenciada que carrega muita influência de cantores folk, demonstra habilidade com o uso de falsetes, explorando bem tanto os registros mais agudos quanto graves de sua tessitura. Suas interpretações são decisivas para o investimento emocional do ouvinte e o cantor não decepciona nem por um segundo.

Foto: Pedro Pinho

Gustavo está claramente visando um público diferente, um mais eclético e mais conectado com tendências diversas do que o que já o conhece. Obviamente, deve haver interseções entre os dois públicos, mas o foco não falar ao público antigo. O próprio fato do artista buscar cantar em outro idioma já denuncia que ele pode não fazer feio com ouvintes não brasileiros.  Vale lembrar que com o streaming, a facilidade de encontrar artistas de outros países aumentou consideravelmente, e é necessário que os músicos e gravadoras tenham isso sempre em mente.

Where The Light Pours In é Gustavo Bertoni em sua melhor forma, brincando de ser ele mesmo. Um disco marcado por ótimas canções e uma boa parceria entre músico-produtor, que rende o melhor das ideias e um sorriso no rosto do ouvinte. Seja em sua banda ou na empreitada solo, o cara está com tudo.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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