“Know” é Jason Mraz investindo ainda mais no bom-mocismo batido

Jason Mraz – Know (2018)

Por Gabriel Sacramento

Jason Mraz surgiu no começo dos anos 2000 na concorrência de artistas como John Mayer. Concorrência que também pode ser entendida como colaboração, é claro. Inclusive, seu disco de estreia, o chatíssimo Waiting For My Rocket To Come (2001), foi produzido por John Alagía — o cara que ajudou a moldar o estilo do Mayer ali no começo da carreira. Tanto John quanto Jason investiam em uma imagem de bom moço bem vestido com faixas pop grudentas e facilmente redutíveis ao formato acústico. Não precisa ser um expert em música pop para saber que esse estilo já saturou e perdeu força há muito tempo.

Por isso mesmo, pouco tem se falado acerca de Know, novo álbum do Mraz. Depois do bom We Sing. We Dance. We Steal Things (2008), o cantor passou a ser mal visto pela crítica e teve dificuldade em continuar a carreira com a mesma relevância. Afinal, “I’m Yours” tocou muito por aí, mas a fama já passou, e assim como o James Blunt, Mraz precisa ensaiar sua retomada pós-hit de sucesso mundial, com discos que chamem a atenção para o talento artístico que um dia demonstrou ter.

Depois da tentativa de emplacar um folk pop que passa arrastado em Yes! (2014), o americano surge agora com uma nova parceria com Alagía e outros produtores como Andrew Wells e Andre de Santanna, além da banda Raining Jane, que o acompanhou nas gravações do álbum anterior. A proposta, dessa vez, é um som brilhante com a essência do cantor, principalmente resgatando aquela veia do primeiro.

Know derrapa muito antes de sequer tentar um salto. As canções são todas muito insípidas e insossas, com interpretações simplistas e arranjos quadrados, que privilegiam a criação de um clima relaxado e despreocupado. Só que é despreocupado demais. O som é inofensivo, sem o potencial de marcar o ouvinte, seja para o bem ou para o mal. Afinal, discos devem causar alguma sensação em seus interlocutores, seja fazer com que eles odeiem ou adorem. Para vender bem e ter repercussão, um disco precisa ficar na mente e na boca dos ouvintes depois da audição. Este novo do Jason se recusa a isso, fazendo com que o ouvinte se pegue ansioso para a próxima audição sem nem ponderar sobre o que acabou de ouvir.

A única faixa que se destaca, mas não salva o todo, é “Love is Still The Answer”. Tem ideias boas e uma certa suavidade angelical agradável, mas peca por ser um pouco longa demais. E peca também pelo seu título e sua proposta temática — que aliás, é um problema da carreira do Mraz como um todo. Ele insiste, disco após disco, no discurso do amor como solução para tudo e numa sonoridade leve e frágil que suporte isso. O problema não é o otimismo romântico do cantor, mas a ingenuidade que ele demonstra ao não abarcar a total complexidade da vida e reduzir ao simples “o amor resolverá”, sem nem mesmo tentar uma reflexão acerca do que seria esse amor. É um discurso “algodão doce” inofensivo que agrada um grupo seleto de ouvintes.

Sua musicalidade também sofre por apostar demais nesse bom-mocismo e na simplicidade acústica, que acaba por não ressaltar os pontos fortes das composições — as razões delas existirem em primeiro lugar. O mundo é muito mais complexo do que o que Mraz e seu discurso lírico e musical tentam propor, e mesmo que ninguém discorde do que ele diz, fica sempre a sensação de uma retórica debilitada e insuficiente.    

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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