“Sweetener” é um grande salto na carreira de Ariana Grande

Ariana Grande – Sweetener (2018)

Por Gabriel Sacramento

Depois do terrível atentado em Manchester, durante um show da Dangerous Woman Tour, Ariana Grande precisou de forças para continuar sua carreira. Enfrentou sérios episódios de ansiedade e ainda reluta em falar sobre aquele dia, mas encontrou na música a motivação para seguir em frente e começou a trabalhar em Sweetener, seu quarto trabalho de estúdio, em julho deste ano. O novo álbum marca a terceira vez em que a cantora fez parceria com o Pharrell Williams, mas também envolveu nomes como Nicki Minaj, Missy Elliott e produtores como Max Martin e Ilya Salmanzadeh.

A primeira vez que os Ariana e Pharrell trabalharam juntos foi na ótima “Heatstroke”, música que entrou para Funk Wav Bounces Vol. 1 (2017), do Calvin Harris. Williams, que é quase um midas do pop moderno, produziu várias canções de Sweetener e impôs seu estilo, revolucionando o pop da Ariana, principalmente na direção vocal das performances. Mas vale ressaltar que os outros nomes envolvidos também fizeram um trabalho bastante inteligente.

Um dos problemas do pop atual —  que inclusive foi o problema da sonoridade da Ariana Grande principalmente nos dois últimos álbuns —, é o excesso de polimento e engrandecimento dos arranjos visando forçar um aspecto dançante e mais chamativo que sufoca as melodias e harmonias. O grande destaque de Sweetener é que não tem esse problema: não há nenhuma pressa para ser pop, nenhuma grandiloquência auto indulgente, pois os arranjos são lentamente desenvolvidos e nos apresentam a força de cada melodia e de cada ideia instrumental/vocal.

Tratando sobre diversos temas como sexo, ansiedade, otimismo, relacionamentos, entre outros, Grande aposta em uma sonoridade mais diferente e esquisita, aprofundando a relação com o R&B que apresentou sobretudo no seu disco de estreia, Yours Truly (2013). Em “raindrops (an angel cried)”, sua voz surge nua sem nenhuma base, com um tratamento adequado, mas não exagerado. “blazed”, com o Pharrell, é marcada por belíssimas harmonias no refrão, enquanto que em “light is coming”, com a Nicki Minaj, Ariana explora sua voz de uma forma diferente. “God is a Woman” possui uma forte base de trap, melodias certeiras e uma interpretação que varia entre swing e sensualidade de forma bem convincente. Já em “successful”, Ariana soa como a Janelle Monáe, abusando de regiões mais baixas de sua voz no refrão, ao invés de cantar nas alturas, como é praxe no pop contemporâneo.

Uma curiosidade sobre o disco é que a cantora separou 40 segundos de silêncio no final de “Get Well Soon” para que a faixa durasse exatamente 5 minutos e 22 segundosjustamente a hora em que aconteceu o atentado em Manchester. A música foi criada junto com o Pharrell e é sobre a ansiedade que a cantora passou a enfrentar depois desse triste evento.

Os produtores acertaram em cheio ao desenvolver bem as composições, focando na autonomia da voz da Ariana e nas suas interpretações em detrimento das bases. A cantora consegue emprestar nuances diferentes em cada música, se adequando bem às propostas, e isso faz toda a diferença na audição. Destaco também a timbragem das faixas, que busca uma identidade sonora menos óbvia.

A parceria de Ariana & Pharrell deu muito certo e conseguiu ajudar a cantora a achar uma voz mais madura e uma retórica mais poderosa. Sweetener é um disco pop saudável, que conquista o ouvinte com um bom diálogo com outras tendências. A americana soa como uma grande cantora, sem precisar de performances histriônicas para provar isso. Definitivamente, um grande passo para o futuro.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *