Em “Aquário”, o Riviera sugere o rock como libertação das prisões mentais

Riviera – Aquário (2018)

Por Gabriel Sacramento

Das Minas Gerais, vem um dos discos de rock mais interessantes que foram parar nos meus ouvidos esse ano. Aquário é o mais novo álbum do grupo Riviera, equipe formada por Vinicius Coimbra (voz e guitarra), Rafa Giácomo (guitarra e voz), Rapha Garcia (baixo e voz) e David Maciel (bateria). Gravado em São Paulo e Belo Horizonte, mixado e masterizado por Afonso Silva. O anterior foi o Somos Estações, lançado em 2016.

O conceito do álbum é super profundo. O título surgiu da ideia de comparar um aquário com a mente humana, que nos aprisiona e acalenta ao mesmo tempo. Ou seja, é um disco sobre saúde mental, sobre as instabilidades mentais que todos sofremos, com letras que ganharam vida depois de experiências do vocalista com a depressão. Em se tratando de rock nacional, é um destaque. Ademais, merece destaque por falar de um tema relevante hoje em dia, mas ainda pouco debatido no Brasil.

Para dar bordas musicais ao conceito, a banda opta por um rock mais leve nos versos e mais explosivo nos refrãos. Esta é uma fórmula que eu venho discutindo em vários textos aqui no site, mas o Riviera vai além da previsibilidade esquemática. Se em faixas como “Do Céu Ao Mar”, é fácil entender a lógica do arranjo, fortemente calcado nessa dicotomia, em outras como “Temporário”, eles desconstroem paradigmas e surpreendem o ouvinte. Perceba como nesta faixa, a banda frustra a expectativa do ouvinte com um arranjo que parece instável — casando perfeitamente com a letra —, mas que segue sem alterar suas macroestruturas até o fim.

Uma boa sacada da produção, aqui assinada pelo Vinicius e pela própria banda, é o fato de apostarem quase todas as fichas no vocal. As faixas dependem bastante do investimento emocional do cantor, que vai de uma voz de cabeça mais frágil à drives agressivos com muita facilidade, entregando todas as nuances necessárias. Seja quando o refrão é catártico ou quando os versos são mais climáticos, a voz do Vinicius está sempre cumprindo bem sua função, com imponência e segurança. Em “Temporário”, por exemplo, os agudos angustiantes do cantor e seus drives certeiros dão o tom preciso à natureza da letra e sua interpretação mais forte no refrão é o que chama a atenção em “Entre o Ser e o que Convém” — aliado ao fato de que a melodia da faixa é muito marcante.

Além de extrair o melhor das execuções e das ideias das faixas, a banda acerta em dinamizar a proposta ao longo do álbum, cuidando para que tudo não soe muito igual, como uma sequência de faixas gêmeas. E mesmo que não haja uma grande variedade de estilos e referências, o disco é bem curto, o que ajuda com que ele nunca seja cansativo.

Aquário lembra o Scalene em alguns momentos, outros acenam para o Emarosa e para o Nothing But Thieves, mas a banda consegue passar a impressão de ser ela mesma o tempo todo, e isso é o que importa. Utilizando força, agressividade, fragilidade e dramaticidade, eles conseguem passar a mensagem que querem e nos fazer refletir. Se a mente pode ser uma prisão, a banda oferece o seu som como uma carta de alforria.

Foto: Vitor Macedo

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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