Em “Coup De Grace”, Miles Kane resiste à tentação de abandonar quem é

Miles Kane – Coup de Grace (2018)

Por Gabriel Sacramento

Enquanto esperava o novo disco do Miles Kane, imaginei que o britânico iria seguir uma tendência mais madura, no sentido de negar a veia urgente e agressiva dos primeiros discos, agregando ao seu estilo solo um pouco do DNA do The Last Shadow Puppets, projeto dele com o amigo Alex Turner. O próprio disco recente dos Monkeys, mais voltado ao lounge me deixou ainda mais certo de que Kane navegaria nessas águas.

Por isso, foi uma grande surpresa ouvir que o cantor não mudou totalmente como os conterrâneos comandados por Turner. Coup De Grace foi produzido por John Congleton, que mixou Historian (2018) da Lucy Dacus, e mantém a identidade que Kane construiu com os ótimos Colour Of The Trap (2011) e Don’t Forget Who You Are (2013). Uma das características mais interessantes destes discos é o aspecto garageiro, dançante e cru que fisga o ouvinte com ótimos coros.

“Too Little Too Late” começa o disco de uma forma poderosa, enérgica e com o pé no acelerador. As guitarras, resultado da cooperação entre Miles e Jamie T, são flamejantes e cortantes ao mesmo tempo. “Silverscreen” apoia-se no baixo forte e na guitarra ocasional cheia de fuzz, enquanto “Something To Rely On” traz um pouco da empolgação adolescente que marcou o britpop nos 90s. Não dá para não citar a faixa-título, que possui uma verve dance-punk forte e irresistível, da qual não dá para desviar. Até mesmo um certo apelo pop foi muito bem-vindo nesta. “Killing The Joke” é uma música que poderia ter entrado no último disco dos Monkeys, e não é difícil imaginar Turner cantando.

Congleton conseguiu muito bem extrair energia explosiva da bateria tocada por Loren Humphrey, das guitarras e do baixo de Zach Dawes. Os instrumentos estão sempre efervescentes, vivos e com muita pressa. No entanto, o produtor conseguiu equilibrar com a faceta mais madura do Kane, dos refrãos mais graves e de músicas mais emocionais como “Wrong Side of Life”, na qual ele solta o vozeirão em uma interpretação fabulosa. Kane acena para o futuro, sem perder de vista seu passado, mas sem soar também como uma mistura genérica de passado-presente. É tudo muito espontâneo.

O trabalho do já citado Jamie T – que já foi descrito como uma versão solo do Arctic Monkeys – é sensacional aqui. Sua guitarra está sempre cooperando ativamente com os arranjos, com uma paleta incrível de timbres e sabores, fortalecendo a harmonia, construindo os climas e sendo livre para experimentar ideias diferentes. As guitarras ditam o tom das faixas, mas o baixo também possui bastante espaço, e um destaque dos arranjos é justamente contrabalançar estes dois instrumentos.

Com um trabalho que não merece uma simples comparação com o The Last Shadow Puppets ou Arctic Monkeys, Kane continua relevante no cenário do rock inglês, com uma carreira solo que acerta a cada passo. Coup De Grace consegue ser forte, ter uma energia do indie rock da década passada, mas ao mesmo tempo não se prende a isso. O disco mais maduro e mais sólido do cantor até agora.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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