Mahmundi e seu antídoto contra os dias ruins

Mahmundi – Para Dias Ruins (2018)

Por Gabriel Sacramentopa

Mahmundi foi um dos destaques da música tupiniquim em 2016, já surgindo com uma autoridade de gente que já está no jogo há anos. Sua autoralidade, sua obsessão pelos anos 80 e suas melodias gentis conquistaram muitos ouvintes, que aguardaram ansiosamente para o segundo capítulo da sua carreira. Esse capítulo acabou de sair, chama-se Para Dias Ruins e foi resultado de uma parceria de produção entre ela e Lux Ferreira.

A cantora está mirando menos nos anos 80 e buscando modernizar mais seu som, mas sem negociar a classe e a brasilidade. “Alegria” não é uma carta de boas-vindas como “Hit” foi no primeiro disco, mas funciona bem configurando o termostato para o máximo. Aliás, falando em temperatura, tenho quase certeza que ela deu uma ouvida no Good Thing do Leon Bridges, porque a influência desse estilo ensolarado de soul é vívida em cada vírgula. A produção foca em ritmos leves, relaxantes, climas fortes e um certo ecletismo sutil e saudável.

Outro acerto da dupla de produção é a boa mão para dosar elementos eletrônicos, sem perder um feel orgânico. Essa conexão aprofunda ainda mais a proposta da cantora carioca e deixa evidente que sua intenção agora não é só emular os anos 80, per si, mas sujar as referências antigas com um pouco da poeira da diversidade. “Tempo para Amar” é um R&B típico de discos americanos da década de 2000, sem nunca soar genérico por isso. “Imagem” lembrou uma boa versão brasileira do Metronomy, com um sintetizador esperto combinando com uma bateria eletrônica vibrante. “Eu Quero Ser o Mar” cai mais para um jazz bossa lounge gostosíssimo de ouvir, daqueles que te envolvem com um clima irresistível. Destaque para o piano nesta e em “Outono”, que fornece uns contornos harmônicos nível Ed Motta e Father John Misty. O refrão de “Outono” com o contraponto entre piano e vocal é uma das coisas mais sublimes que ouvi nos últimos tempos.

A proposta da Mahmundi foi fazer um disco mais solto em que cada música contasse uma história diferente. Isso foi feito de uma forma bem interessante, já que cada faixa guarda, sim, uma identidade própria e um jeito único de falar com o ouvinte, mas o todo é muito coeso. Cada ideia dialoga muito bem com a outra, e esse universo sonoro para o qual sua música nos leva parece ser fascinante. Uma vez estando lá, o ouvinte não quer mais sair.

Totalmente destacada dentro do cenário da MPB, Mahmundi impõe suas regras e convida o ouvinte à assimilação de suas ideias. Um disco para dias ruins, para dias bons, para dias empolgantes, para dias deprimentes, para o verão, outono, inverno e primavera. O único defeito do álbum é que ele acaba rapidinho. Quando termina, o ouvinte se pega cantando “queria ficar mais um pouco contigo…”, como ela em “Outono”.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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