Primeiro disco do The Nude Party é um show de diversão e espontaneidade

The Nude Party – The Nude Party (2018)

Por Gabriel Sacramento

É incrível como é possível representar humores e estados de espírito de forma extremamente convincente com escolhas musicais. As bandas podem soar sisudas, chamar a atenção para a qualidade e profissionalismo do trabalho, falando sobre temas sérios, mas também podem soar divertidas, zoeiras, festeiras e jogar todo profissionalismo para o ar. Tudo isso pode ser demarcado com escolhas de produção, som e composição, sem precisar que ninguém abertamente fale do que se trata. Nós, ouvintes, somos contaminados com os humores e com os sentimentos dos artistas no momento em que clicamos no play.

O The Nude Party, que ganhou esse nome por causa de uma performance sem roupas em uma festa, chega ao seu primeiro trabalho com muita energia. O grupo é Patton Magee (guitarra e vocais), Shaun Couture (guitarra e vocais), Alec Castillo (baixo e vocais), Don Merrill (orgão, piano), Austin Broose (percussão) e Connor Mikita (bateria). Produzido pelo baterista do Black Lips, Oakley Munson, o disco de estreia acerta em cheio trazendo alegria ao ouvinte com 43 minutos de pura empolgação jovial e descontração.

Com um estilão de banda dos anos 60, perdida em 2018 por algum motivo, o grupo combina muito bem rock’n’roll com elementos de country. A produção mantém tudo muito fluido, solto, espontâneo e divertido, com refrãos grandiosos, empolgantes e uma vibe de festa que vai até o amanhecer. No entanto, o produtor também consegue explorar bem um psicodelismo efervescente, cheio de vida e, claro, ácido. O ouvinte é bem manipulado por arranjos que balanceiam o melhor das duas características. “Feels Alright” parece soar como um Rolling Stones do século XXI e “Records”, cheia de guitarra slide, é mais contemplativa, mesmo que não seja séria. O órgão de “Waters on Mars” dá um tom creepy e levemente psicodélico, já a instrumental “Charlie’s Sheep” fecha o álbum com o corpo e alma nos anos 60.

A semelhança com a jovialidade dos Beatles no início da carreira não é pura coincidência. “Gringo Che” deixa isso bem evidente, com uma introdução de baixo bem Paul McCartney, guitarras molecas e alguns coros que lembram os quatro caras de Liverpool. É preciso ressaltar que o Nude Party faz o que faz com muita personalidade, e mesmo que nada seja levado a sério, é tudo feito com cuidado para que o ouvinte entenda e se identifique. Também há uma semelhança com outras bandas/artistas de rock de garagem que ouvimos por aí, só que com uma ênfase ainda maior na falta de rigor e controle. As escolhas de sonoridade e mixagem lembram muito o Ron Gallo no seu ótimo Heavy Meta de 2017, mas também acenam para outros atos como Ty Segall.

No clipe de “Chevrolet Van”, uma das mais legais do play, eles ironizam o que fazem: a ideia de ser músico e sair por aí tocando e viajando em vãs, que é encarada por pessoas mais experientes como uma perda de tempo. Qual o músico que nunca ouviu um conselho do tipo: “desiste disso aí, não vai dar dinheiro”? O sexteto resolveu fazer disso uma grande zoeira, com imagens deles super desinteressados em um escritório com terno e gravata, na rotina burocrática de muita gente, em contraponto com as imagens deles super empolgados em um bar tocando rock and roll. Afinal, se você pode falhar fazendo o que não gosta, por que não optar por fazer o que gosta? 

O sonho desses americanos é continuar tocando bastante até quando não tiverem mais forças para tocar. Enquanto isso, vão fazendo as melhores escolhas para que seus ouvintes se sintam tão livres para curtirem a vida quanto eles. Patton, Shaun, Alec, Don, Austin e Connor chamam todo mundo para a festa. O ouvinte aceita tão feliz e empolgado, que sai correndo e até esquece as roupas.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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