Tom Grennan estreia bem com um pop conquistador

Tom Grennan – Lighting Matches (2018)

Por Gabriel Sacramento

Para quem começou a cantar por acidente – no karaokê em uma festa, bêbado -, até que não demorou para Tom Grennan pegar o jeito. Em poucos anos, o britânico já começou sua empreitada artística lançando EPs, conquistando espaço, ouvintes, e agora finalmente com seu disco de estreia, Lighting Matches. O disco contou com a produção de diversos nomes como Charlie Hugall, Fraser T Smith e Egg White e estreou em quinto nas paradas britânicas. No momento que escrevo esse texto, o disco ocupa a vigésima posição.

A voz ríspida e cheia de drive lembra o Rag’n’Bone Man, revelação do pop do ano passado, e Lewis Capaldi, jovem promissor que ainda não lançou seu primeiro álbum. Mesmo que abuse desse aspecto rouco em sua voz, sua sonoridade é climática e para cima, com empréstimos bem feitos de outros gêneros. No DNA do jovem está a influência de outros cantores do cenário pop inglês como Ed Sheeran, James Morrison e James Arthur.

“Found What I’ve Been Looking For” já abre com uma guitarrinha climática e cristalina, que denuncia o estilo good-vibes do disco. Aliás, os primeiros minutos do disco deixam claro também que se trata de um disco pop bem acessível. A produção faz questão de trabalhar bem as estruturas das faixas, para priorizar os refrãos e momentos de ápice, nos quais eles querem que nós, ouvintes, estejamos prontos a investir total atenção. A estratégia funciona, pois os coros são bem marcantes, gostosos de ouvir, mesmo que sejam simples e inocentes. “Secret Lover” tem cara, corpo e pegada de hit, desses para tocar o tempo todo por aí mesmo, com um ritmo levemente dançante e um swing subjacente que combina bem com o timbre charmoso do Tom.

A mixagem do álbum consegue criar camadas densas de instrumentação, que, tudo bem, muitas vezes dificulta a compreensão da função de cada instrumento no arranjo, mas que funciona bem no sentido de concentrar o ouvinte no que Tom e a sua voz estão fazendo. A mixagem consegue também criar momentos mais enérgicos, sem nunca aludir à agressividade desmedida, e momentos mais secos propícios à dança. É notável uma influência do indie rock em algumas das escolhas de mix, principalmente em se tratando de efeitos e acabamento de timbres. A mix também merece destaque por manter uma identidade pop sem precisar de uma sonoridade super polida ou brilhante demais.

Muito se tem falado sobre uma certa influência de soul no estilo do Tom, mas é pouco notável em Lighting Matches. Talvez seja o modo de pensar os arranjos e a voz, mas nada muito evidente como a gente ouve em outros artistas conterrâneos dele. Obviamente, isso não afeta em nada o mérito do disco, que consegue atingir o ouvinte especificamente onde quer, fisgá-lo, com músicas de um potencial pop avassalador, mas que se recusam a se entregar facilmente a esse potencial. Talvez seja cedo para falar que Grennan é a revelação do ano em terras inglesas, mas certamente esse disco é um grande acerto que o impulsionará para vôos mais altos no futuro.

Foto: Alannah McClymont

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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