“Hive Mind” do The Internet ressalta o poder do coletivo

The Internet – Hive Mind (2018)

Por Gabriel Sacramento

A Lounge Music foi um gênero musical, subgênero do Easy Listening, popular nos anos 50 e 60, que com o tempo se tornou sinônimo de música de hotel, casinos e elevador. Mas muita gente associa o termo à música negra, neo soul, R&B e até mesmo à trip hop/música downtempo. Falando em soul lounge, eu penso logo no neo soul dos anos 90, estilo do Maxwell, Erykah Badu e do D’Angelo – o grande Maxwell’s Urban Hang Suite (1996) define perfeitamente. Discos desse ano como Blood do Rhye e Good Thing do Leon Bridges também são claros exemplos dessa visão musical aplicada à música negra. E ainda mais recentemente, o The Internet trouxe um exemplo definitivo do que seria o soul/R&B lounge: Hive Mind, quarto disco do grupo californiano. É um disco tranquilizante, relaxante e com muito conteúdo.

O The Internet é um coletivo bem interessante formado por membros anteriores do Odd Future, que chega ao seu quarto trabalho em forma, depois de ter aperfeiçoado bem o estilo a própria voz. No primeiro disco, Purple Naked Ladies (2011), surgiram com um som que misturava uma veia abstrata com um R&B eletrônico e experimental, com foco em texturas esquisitas. Se tornaram mais comerciais com o tempo, mas sem liquidificar a retórica. O grupo é Syd Tha Kid nos vocais, Steve Lacy na guitarra/baixo, Matthew Martin nos teclados e bateria, Patrick Page no baixo e Christopher Smith na bateria e percussão. Citei os instrumentos só para dar uma noção do que cada um faz, mas o grupo vai além disso e cada membro coopera com outras funções, reforçando a ideia de coletivo. Hive Mind foi produzido pelo próprio grupo e contou com a mixagem do veterano Jimmy Douglass.

A produção do disco mantém uma clara preocupação com os timbres, texturas, efeitos e com o clima. Como todo bom disco de lounge, Hive Mind envolve o ouvinte em suas altas temperaturas, seu swing e seu apelo pop subjacente. O disco acena bem para o R&B da década passada, bem como para as experiências mais modernas, que tendem a ser mais experimentais. No entanto, o novo é ainda mais tranquilo e menos experimental que o anterior, Ego Death (2015). “Come Together” tem um aspecto dançante marcante e um refrão que vai crescendo em camadas e invadindo a mente do ouvinte. “Roll (Burbank Funk)” foca mais no ritmo, nos elementos percussivos e no baixo ágil, com vocais principais do Steve Lacy também. Lacy também coopera com vocais na ótima “Come Over”, que tem melodias grudentas em todas as seções. A contraposição de vocais é o que mais chama a atenção em “Stay The Night” e “It Gets Better (With Time)”.

É interessante notar como a produção pensa os arranjos para fortalecer a construção de clima. Eles são uniformes, variam pouco, com os elementos centrais das faixas, como as linhas de baixo, sendo repetidos durante todo o arranjo. Não há uma noção clara de hierarquização entre as seções, mas todas contêm o mesmo peso dramático e atraem o ouvinte da mesma forma. As faixas não são curtas, mas também não recorrem a mudanças de rumo para forçar agilidade.

O baixo do Patrick Page é fundamental para estabelecer a identidade das faixas, fornecendo uma noção rítmica forte, acompanhada pela bateria e percussões do Christopher Smith/Matthew Martin, e uma autoridade harmônica imponente. O baixo não é só destaque quando está em cena, mas é importante notar a sua força quando não está presente também. Os vocais da Syd são imprescindíveis para os climas, definindo o tom de leveza e a sensualidade necessária para cada faixa. Outro instrumento usado ativamente é a mixagem do Jimmy Douglass, mixer que já trabalhou com Justin Timberlake no sensacional Future Sex/Love Sounds (2006), com o Jay-Z no 4:44 (2017) e com o próprio The Internet no Ego Death. Douglass utilizou uma série de truques para criar identidade com os timbres e texturas, indo do psicodélico hipnótico ao leve e jazzístico, com um trabalho que varia de música para música, buscando a melhor abordagem para cada uma – assim como a instrumentação que naturalmente muda porque os músicos assumem funções distintas. Mesmo em músicas com dois baixos ou duas baterias ao mesmo tempo, o mixer nunca perde a mão e o controle, mantendo tudo dentro da proposta semi-minimalista, sem exageros.

Hive Mind é o lounge levado a sério e feito da melhor forma. Um disco forte, que não é complicado de ouvir, mas que convida o ouvinte a audições mais intimistas, por ele ser intimista. Ressalta o poder das cooperações na música, o que realmente pode sair de um coletivo pensando junto, jogando ideias na mesa e discutindo-as. Um dos destaques do ano.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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