Trilha delicada emoldura as tensões no filme “Desobediência”

Desobediência – a trilha sonora de Matthew Herbert [2018]

Por Lucas Scaliza

Ronit (Rachel Weisz) volta para sua cidade natal após receber a notícia da morte de seu pai, um respeitado rabino. Logo descobrimos que Ronit não volta apenas para sua cidade, mas especificamente para uma comunidade judia ortodoxa em que famílias são estimuladas a levarem ao pé da letra o versículo “crescei e multiplicai-vos” do Torá/Antigo Testamento, mulheres escondem seus cabelos debaixo de sheitels (perucas), sexo entre marido e mulher deve ocorrer às sextas-feiras, o sábado precisa ser guardado, e vários outros ritos próprios dessa vertente do judaísmo. Muitos anos atrás, quando Ronit trocou a comunidade em Londres por Nova York, na verdade estava, assim logo saberemos, fugindo das amarras de todas essas tradições.

Ronit percebeu muito nova que era lésbica e jamais poderia exercer sua liberdade de escolha dentro da comunidade. Sua amiga Esti (Rachel McAdams), paixão de sua juventude, agora está casada com Dovid (Alessandro Nivola), amigos de ambos anteriormente. Apesar de tentarem manter as aparências, ainda há tensão entre as duas. Logo, o que elas compartilham é desejo, e a tensão se manifesta no restante da fechada e controladora comunidade.

Não há grandes reviravoltas ou spoilers que possam ser colocados neste texto e atrapalhar sua experiência. Mas há diversos detalhes que fazem deste filme um dos mais interessantes sobre o tema. É maduro, entrega ótimas atuações e não cedendo às saídas mais fáceis, mostrando transformações e sacrifícios pessoais com delicadeza. A mesma delicadeza, aliás, é seguida por Matthew Herbert na construção de sua trilha sonora para o filme.

A música demora para aparecer em Desobediência (Disobedience). O drama se desenrola e você se acostuma ao silêncio, a experimentar as emoções sem que a música precise delimitar o que quer que seja. Quando aparece, na primeira meia hora do filme, passa despercebida completamente. Apenas na cena em que a relação de Ronit e Esti começa a se tornar um problema social é que a canção é sentida. Herbert usa poucas notas e dá a sua orquestra um feeling quase etéreo. Mesmo quando a tensão entre os personagens se agrava e a música assume um tom de mistério e suspense, é tocada de uma forma quase onírica, sem sobressaltos e dando tempo para que até o mais ínfimo dos elementos ou instrumentos usados na gravação tenha seu espaço e sua função na melodia.

O inglês Matthew Herbert, filho de um engenheiro de som da BBC, começou a tocar ainda criança e na adolescência se tornou um pianista clássico que acompanhou diversas orquestras pelo mundo. Seu interesse não se restringiu ao mundo erudito, tendo enveredado pela música eletrônica e pelos experimentos com objetos do cotidiano que também poderiam produzir melodias e ritmos, assim como sons captados em ambientes e depois acrescentados à música. Doctor Rockit, Wishmountain e Radio Boy são alguns dos pseudônimos usados por Herbert ao lançar discos e EPs de música eletrônica e pop. De fato, ele é mais conhecido por sua produção eletrônica e remixes do que como um escritor de partituras para orquestra. Mas mesmo escrevendo para orquestra, ele encaixa sua especialidade com muito tato. “Pharmacy”, por exemplo, é lenta e sombria em seu trabalho orquestral, e torna-se espectral e angustiante quando sons cortantes de objetos são introduzidos na composição.

O que a trilha de Desobediência deixa claro é que um bom músico é um bom músico em qualquer área. Herbert não faz a mais instigante ou apaixonante trilha de todos os tempos, mas a mais profunda e terna que pode fazer para emoldurar o drama de Ronit e Esti, retratado com sinceridade e sem dramalhão na tela.

Há uma cena logo no primeiro ato do filme que é um achado. Antes mesmo de sabermos todos os detalhes e dramas que envolvem a relação das duas mulheres, elas perdem um minutinho para ouvir a canção “Lovesong” do The Cure no antigo rádio da casa do falecido rabino. Os versos da canção se encaixam perfeitamente na situação que já conhecemos até ali e vai se encaixar no que ainda há para descobrirmos. Quase como se o roteiro tivesse sido construído para se encaixar na música.

Desobediência é dirigido pelo chileno Sebastián Lelio, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018 pelo impactante e belo Uma Mulher Fantástica (2017), filme em que narra a história de uma mulher transexual em busca de reconhecimento e dignidade após perder o parceiro. Empatia, finais agridoces e personagens que não se encaixam no meio social parecem ser marcas de sua arte cinematográfica, assim como a maturidade de como escolhe contar sua história.

Desobediência não é uma história de jovens descobrindo o amor ou a orientação sexual que não é a norma esperada pela sociedade e pela religião. Ronit e Esti são duas mulheres para lá dos 30, que possuem dilemas adultos. Sonhar não é mais uma opção para elas, já que cada escolha pode implicar uma série de consequências definitivas. Sendo assim, o que há de mais onírico na trilha talvez sirva para indicar o que não se concretizará na relação das duas amigas e amantes.

Mesmo que nem tudo possa dar certo para o trio protagonista, pelo menos todos acabam saindo transformados desse reencontro. Músicas como “Alone”, “Goodbye” e “For Love” pontuam a beleza que pode vir como produto de um sofrimento, mas também sublinham a melancólica sensação de estar livre e, mesmo assim, acabar mais distante do conforto e da estabilidade do que se estava antes de o filme começar.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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