Bixiga 70 investe em psicodelia no ótimo “Quebra-Cabeça”

Bixiga 70 – Quebra-Cabeça (2018)

Por Lucas Scaliza

A banda paulista Bixiga 70 chega ao quarto disco mantendo uma regularidade invejável. Desde a estreia com Bixiga70 (2011) dá uma aula de como fundir culturas e tirar proveito de seus nove integrantes pra criar uma música rica e que, graças ao bom senso na hora de compor e gravar e mixar todo o material, nunca soa all over the place e nem caótico. Quebra-cabeça é assim também. Cada composição é uma peça do jogo, mas um universo em si, o que faz do álbum – o mais longo já gravado pela bando – um grande mosaico de ritmos e texturas.

Funk, soul e afrobeat continuam no DNA do grupo. Jazz é invariavelmente a metodologia a que recorrem para aglutinar tudo isso e criar momentos catárticos de música instrumental. Reggae também está presente. A novidade fica por conta do psicodelismo entregue principalmente pelo uso de sintetizador, trazendo uma vibe a mais para a discografia do grupo. Outro elemento que parece dar as caras pela primeira vez é o indie rock, principalmente em músicas que fazem temas fáceis de acompanhar, geralmente na primeira metade das canções, como ocorre com a faixa-título e “Ilha Vizinha”.

Não tem bad trip em Quebra-Cabeça. Um dos maiores elogios que se pode fazer ao Bixiga 70 é que sua música continua sendo, do começo ao fim do disco, inspirada, criativa, colorida e faz o sangue circular pelo corpo mesmo que você não esteja dançando. Por isso, desde que conheci a banda – levando em consideração o som que fazem e a competência ao vivo e em estúdio –, sempre achei que um disco em parceria com o jazzista etíope Mulatu Astatke seria o encontro de duas forças gêmeas, mas gestadas em diferentes gerações.

O encontro com Astatke não ocorreu em estúdio ainda, mas já se encontraram com o americano Victor Rice, que remixou algumas faixas da banda em estilo dub, o que acabou dando uma nova cara a elas e um grau mais alto de psicodelia. A experiência está no EP Connection: Bixiga 70 Meets Victor Rice.

Mas voltemos ao Quebra-Cabeça: vale dizer que todas as faixas possuem jornadas bastante próprias. Todas evoluem de forma a abrir horizontes, nunca se contentando em ficar estanques em apenas um riff, um tema, um ritmo, uma textura. A roqueira “Primeiramente” é uma das faixas mais interessantes do álbum, congregando tudo que o Bixiga 70 oferece e apenas quatro minutos e meio. A guitarra distorcida dá o tom, o afrobeat fervilha na percussão e o sintetizador surge como que saído de uma outra dimensão. “Portal”, que fecha o álbum, é uma das canções mais bonitas que o Bixiga 70 já produziu. Nos conduz para fora de seu universo sem pressa e sem alarde, nos deixando aproveitar cada minúcia da mixagem e do timbre encontrado por músicos e produtor. E ainda há um naco de drama que é absolutamente cinematográfico.

As ideias que formaram o trabalho vêm sendo trabalhadas há mais de um ano, influenciados pela musicalidade de lugares tão diversos quanto Marrocos e Nova Zelândia, Índia e toda a Europa ocidental, todas regiões em que tocaram durante a última turnê. A nitidez com que soam as várias camadas sonoras obtidas pelo Bixiga 70 em Quebra-Cabeça se devem ao fato de terem gravado cada instrumento separado em estúdio, diferente dos álbuns anteriores que foram gravados ao vivo. Dessa forma, a sobreposição de instrumentos foi facilitada para a produção de Gustavo Lenza, mas a espontaneidade das performances está mantida.

Com novas e viajantes ideias sobre a mesma base, o Bixiga 70 mantém uma das discografias digna de nota e da sua atenção. Quebra-Cabeça inova principalmente com o psicodelismo, mas ainda há muito terreno para se descobrir no futuro. Os paulistanos ainda não tentaram de tudo e nem forçaram a barra. Aliás, se você é novo com a banda, pode começar a ouvi-la por Quebra-Cabeça que o disco é um dos mais fáceis de digerir.

Quebra-Cabeça está disponível em CD, cassete, vinil e está nas plataformas digitais. O coletivo é formado por Cris Scabello (guitarra), Daniel Nogueira (sax tenor e flauta), Daniel Gralha (trompete), Décio 7 (bateria), Doug Bone (trombone), Marcelo Dworecki (baixo), Mauricio Fleury (teclados e guitarra) Rômulo Nardes (percussão) e Cuca Ferreira (sax barítono e flauta).

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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