The Suffers continua traduzindo o soul de ontem para geração de hoje

The Suffers – Everything Here (2018)

Por Gabriel Sacramento

Em 2016, eu escrevi uma crítica bem nostálgica e empolgada para o primeiro disco deste grupo texano, argumentando que o som deles era como um elixir da juventude para o velhinho soul. Gostei tanto do primeiro registro do grupo, que indiquei para a lista de melhores álbuns do primeiro semestre daquele ano. Dois anos depois, a equipe está um pouco menor (oito apenas, diferente dos dez de 2016) e um pouco mais madura e focada. O segundo disco se chama Everything Here e foi produzido pela própria banda em parceria com Zeke Listenbee e John Allen Stephens.

Vale lembrar que, em pleno 2018, fazer soul à moda antiga é ser mais um grão de areia na praia, já que temos uma penca de artistas surgindo a todo momento e competindo seriamente pela atenção do público fã do gênero. Mas o The Suffers não parece preocupado com concorrência: eles parecem livres para se divertir com sua música, criar e imaginar, surpreendendo e emocionando o ouvinte.

A produção de Everything Here foca na suavidade e leveza das execuções à mixagem, com muita independência entre os diversos instrumentos diferentes. A abordagem é mais próxima do smooth jazz do que era no debut, com timbres mais modernos. Também há um foco no aspecto big band, no entrosamento entre os músicos, que se complementam de uma forma bem agradável e até protagonizam jams em alguns momentos específicos. Mesmo com muitos instrumentos, tudo é muito coordenado para ser respeitoso e nada chocante, gerando, com isso, uma sonoridade muito aberta, mais brilhante e com frequências bem espaçadas no espectro sonoro.

“I Think I Love You” começa com riffs em stacatto, percussões ágeis e desemboca em um refrão bem marcante, um dos melhores do play. Groove em stacatto em uma pegada mais funk é também o destaque de “What You Said”, com o baixo no centro e boas intervenções dos metais espertíssimos. “Mammas” é uma belíssima homenagem às mães dos membros da banda, com uma pegada cool, jazzy e solene. “Won’t Be Here Tomorrow” tem cara de balada soul de décadas atrás, com direito a um coro gospel no final bem emocionante.

O baixo do Adam Castaneda é um instrumento fundamental para as bases do novo disco. As linhas sempre muito pontuais, precisas, colorem as faixas e fornecem tranquilidade e muita segurança; os teclados de Patrick Kelly enriquecem as harmonias e brincam com timbres que conferem uma veia mais lounge ao disco, criando climas e camadas envolventes; já o Kevin Bernier na guitarra impressiona com uma sensibilidade brilhante que abusa de possibilidades melódicas sutis para rechear os arranjos de vida; na faixa-título, que é quase um reggae, a sacada do baterista Nick Zamora com os acentos na caixa é capaz de arrancar um sorriso do ouvinte, pois reforça o ritmo e chama a atenção para o instrumento; e a Kam Franklin continua irrepreensível, com uma vitalidade impressionante nas interpretações, utilizando as regiões baixas e altas de sua voz com muita competência. Muito da dinâmica do disco no geral depende da forma como Franklin canta. (Sem contar que comparações com Brittany Howard, do Alabama Shakes, ainda são muito bem-vindas.)

O próprio objetivo do grupo não é impressionar os ouvintes com habilidades técnicas, mas fazê-los dançar, como já afirmou o baixista Adam, por isso, os arranjos não são densos e complexos e possuem estruturas bem definidas e acordes bem acentuados. No entanto, a lógica de arranjos deles é imbatível mesmo assim, com uma equipe que não só toca junto muito bem, mas pensa música junto muito bem. Uma prova disso é a penúltima faixa do play, “You Only Call”, na qual, eles conseguem variar bem o arranjo como em uma faixa normal, estabelecendo sensações diferentes para seções diferentes, sendo que a letra consiste somente em “you only call me when you need something”. Mesmo que a letra seja somente uma frase, a música nunca deixa a sensação de estar incompleta ou curta demais.

Esse ano já tivemos o Encore do Anderson East e Good Thing do Leon Bridges, que entraram para a lista de melhores do semestre e foram destaque no cenário do soul/neo soul. Everything Here possui uma vibe diferenciada que destaca bem a banda, sendo menos intenso e abafado que Encore, bem como menos contemplativo e quente que o disco do Leon. 

O som do The Suffers continua trazendo energia e vida ao soul, dando uma cara moderna e solta ao gênero, sem precisar do velho copy-and-paste do que já foi feito. Everything Here é uma continuação perfeita: reforça o poder de fogo da banda e lança esperança para um futuro bem frutífero. A banda consegue intermediar gerações com um soul atemporal, que, mesmo depois de tanto tempo, ainda carrega a essência do tradicionalismo afro-americano. O velhinho, que já tinha conseguido um poderoso elixir em 2016, continua ainda mais forte, jovial e ousado.

E você? Teria 48 minutinhos para ouvir a palavra do senhor soul?

Foto: Todd Spoth

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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