Gui Boratto cria um prisma de boas sensações em “Pentagram”

Gui Boratto – Pentagram [2018]

Por Lucas Scaliza

Nome mais do que essencial para a música eletrônica deste século, o brasileiro Gui Boratto está na pista há pelo menos 15 anos e há 11 desde que Chromophobia [2007] arrebatou os ouvidos de públicos do mundo todo. O pentagrama, a estrela de cinco pontas, é a imagem que ele escolheu para batizar seu quinto disco de estúdio, Pentagram.

A música produzida por Boratto sempre foi colorida e vibrante. Pentagram, mesmo em suas partes mais sombrias e arrastadas, nunca perde de vista a porção mais quente e luminosa que está no DNA do DJ e produtor. É um músico que ainda valoriza batidas e fundamenta sua música em sequências de notas musicais que criam uma melodia rica em timbres eletrônicos, uma escola que ainda também é praticada por grandes nomes como o do canadense deadmau5 e dos franceses do Daft Punk. Por cima disso fica livre para criar atmosferas diversas, com um pé na experimentação e outro no exímio controle de sua criação.

Esse controle cuida para que as canções de Boratto, e de Pentagram em especial, sejam criativas, mas sem pesar demais a mão ou fugir de uma estrutura a que o produtor está acostumado a lidar. Controle é também o que faz de “618” uma faixa especial e que ressalta o lado arquiteto do produtor: com 6 minutos e 18 segundos de duração, reflete a proporção áurea da forma do pentagrama.

Com algumas exceções, o álbum é realmente “quadrado”, no sentido de ser calculado e obedecer a padrões. As canções mudam de ambientação e propõe partes diferentes, mas quase nada que pegue o ouvinte desprevenido. Sendo assim, há viagens bem interessantes no disco, como em “Forgive Me”, mas nada que meta o pé na porta e ganhe a visceralidade e anarquia que um The Chemical Brothers se permite, para dar um exemplo.

O álbum é um mundo em si. Ouvi-lo lembra muito a sensação de ler um livro em que uma realidade é construída, seja a do Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, ou d’A Cor da Magia, de Terry Pratchett. Você curte o ritmo da jornada, encontra novos sons em meio a padrões que já conhecia. Boratto usa uma série de instrumentos acústicos, mais do que em seus trabalhos anteriores, para encorpar a produção do mundo de Pentagram. A maior parte desse lado orgânico está presente na bela “Scene 2”, mas há como ouvir outros instrumentos em outras faixas, ou pelo menos procurar ouvir, pois nem sempre o som puro do instrumento é o utilizado por Boratto. Como em uma história fantástica ou de ficção científica, a transformação de elementos já conhecidos em outros sons é parte da mágica.

O mundo de Pentagram tem suas próprias bases. Gui Boratto já falou sobre a influência da escultura de Lygia Clark, por exemplo, cujas dobraduras confundem equilíbrio estético e precisão matemática. Tears For Fears parece ter sido um ponto de partida para “The Walker”. O techno old school acaba representado em “Spur”. E ele localiza James Holden na faixa-título. Em certo momento, surge uma voz de criança dizendo “OK” em “Alcazar”. Pode ser o mesmo OK ouvido na introdução de “God of Thunder” do Kiss. O paulistano é mais conhecido pelos remixes e pelas criações originais do que pela manipulação de samples, mas pode ter deslocado um elemento da faixa roqueira e colocado sem sua música atmosférica. Ou simplesmente não é o OK da música do Kiss.

Nenhuma das 12 faixas do álbum é explosiva ou cria uma real tensão no ouvinte. É um verdadeiro prisma em termos de estilos e criação eletrônica, tem vários momentos sentimentais e, no geral, Pentagram evoca muitas boas vibrações. Mas carece de drama. Como ouvintes, temos a sensação de passear por aí junto com as canções [“Overload”, com vocal da esposa de Boratto, Luciana Villanova, é excelente nesse sentido], mas não de ficarmos preso a uma emoção ou sentimento. A jornada pela quase uma hora de som é bonita, mas não exatamente transforma o ouvinte. Contudo, várias dessas faixas podem ser remixadas por outros produtores e assim ganhar a carga dramática que lhes falta. Também não podemos nos esquecer de que as faixas serão apresentadas ao vivo em pistas de dança, o que muda radicalmente a interpretação delas. Portanto, como obra de arte, Pentagram não se esgota no álbum que temos ao alcance como disco físico ou nas plataformas digitais.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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