O folk reflexivo e existencial dos Arrais confronta e conforta os ouvintes

Os Arrais – como, então, viveremos? (2018)

Por Gabriel Sacramento

Dilemas existenciais, crises humanas, fé, esperança, desesperança, desespero, insegurança, confiança: tudo isso, de certa forma, está impregnado no DNA da dupla composta por Tiago e André Arrais, musicalizado com um folk sensível e poético. Os irmãos são cristãos, mas não escrevem música estritamente religiosa, pois preferem abordar temas que são humanos, universais e podem fazer com que qualquer um se identifique. Com uma carreira que não é o ganha-pão principal deles – já que mantiveram suas profissões -, mas que também não é um hobby simplesmente para o lazer, os arrais chegam ao seu quarto trabalho de estúdio, o fechamento de uma trilogia de EPs que começou com o ótimo As Paisagens Conhecidas (2015).

A dupla faz um estilo de indie folk cristão muito comum nos Estados Unidos, que mantém relações próximas com o indie folk climático de grupos como Passenger, Bon Iver – na fase old-school – e Sufjan Stevens, só que com uma veia ainda mais contemplativa e ainda mais focada nas letras. Eles dizem não se preocupar com estilos, mas sim com as roupagens devidas para as mensagens que querem transmitir com as letras.

O novo EP foi produzido novamente pelo Andy Gullahorn, que já tinha trabalhado com a dupla em outros projetos, e gravado no home estúdio do produtor na terra do country, Nashville, assim como os outros anteriores. E o grande diferencial do novo EP é o fato dos irmãos estarem ainda mais dinâmicos e buscando novas abordagens e novos humores para a música deles. As escolhas do produtor foram cruciais para que as mudanças fossem bem demarcadas, soando confortáveis e conectando-se à solitude do folk, que é a essência do som deles. “Guerra”, por exemplo, é a música mais elétrica e intensa do álbum, com a bateria em um riff bem interessante ao fundo, que alimenta uma tensão crescente e dialoga com a guitarra estilosa e suja de uma distorção leve e charmosa. A faixa versa sobre a guerra que existe dentro de cada ser humano, sangrenta, que é travada todos os dias.

Mesmo que haja mais instrumentação no geral, o voz-violão típico ainda é o norte, como percebemos na seca e crua “instante”, que reflete bem as incertezas de todos os seres humanos diante dos dilemas da vida. Mas se esta é mais triste, “semente” segue uma linha mais esperançosa e colorida, muito por causa das cordas que acompanham o violão e a voz. Os irmãos também experimentam um folk mais pop e aberto em “mistério”, que também possui uma ponta de esperança em sua letra e conta com a voz da cantora Laura Souguellis.

Optando por menos músicas por lançamento, os arrais acertam ao não cansar o ouvinte com uma repetição desnecessária da proposta minimalista, íntima e simples do seu som. Diferente, por exemplo, do S. Carey no seu mais novo, Hundred Acres (2018), os irmãos conseguem manter o ouvinte o tempo todo entretido e investido na narrativa e no conceito. como, então, viveremos talvez não seja tão marcante quanto o primeiro álbum, Mais (2013), e o primeiro EP da trilogia, As Paisagens Conhecidas, nem possui faixas com poder de fogo para se tornarem grandes hits, mas é um fechamento interessante desse primeiro capítulo da carreira deles que reforça que eles estão cada vez seguros no que fazem.

 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

Comentários

    Ruan Sandim

    (18 de julho de 2018 - 12:02)

    Na verdade não se trata de uma trilogia, a narrativa foi iniciada no Mais e encerra em como, então, viveremos?.

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