Dinamarqueses do Iceage amadurecem ainda mais em “Beyondless”

Iceage – Beyondless [2018]

Por Lucas Scaliza

Beyondless é elástico. O quarto disco dos dinamarqueses do Iceage mantém um centro nervoso roqueiro que se ramifica para diversos subgêneros. Já não dá mais para categorizá-los como punk, como nos dois primeiros álbuns. Há indie, há influências de folk e blues, há muito art rock se esgueirando pelas beiradas. Há faixas mais diretas, há faixas que introduzem arranjos de jazz no sax e no trompete e até violinos e trombones para dar aquela preenchida de som. Com tantas tendências ocorrendo, às vezes mais de uma na mesma faixa, é como se o ouvinte fosse jogado de um lado para outro, conhecendo diversas facetas da banda dentro de um disco que não é rápido de se sacar.

De certa forma, é um tanto como Plowing Into The Field Of Love [2014], mas a diferença é que o quarteto caprichou mais na mixagem dessa vez. O Iceage não perdeu aquela veia meio garageira completamente, mas Beyondless é inegavelmente mais polido e tem arestas bem melhor aparadas em termos de gravação e equalização de instrumentos. As guitarras de Elias Bender Rønnenfelt e de Johan Surrballe Wieth soam menos emboladas [com destaque para “Pleed the fifth”]. O baixo de Jakob Tvilling Pless está mais nítido e ainda sendo um grande responsável pela manutenção das harmonias da banda. A bateria de Dan Kjær Nielsen tem mais brilho, embora ainda soe um tanto abafada.

As melhorias técnicas não são as únicas. O senso pop do grupo para reunir diversas referências dentro de uma mesma faixa está mais afiado. Se aquela aparente baguncinha em Plowing… era um ponto interessante para a banda, cabe dizer que agora eles parecem menos anárquicos, conseguindo planejar muito melhor a participação de cada elemento sonora. O desconforto agora é mais profissional, mas passa longe de soar superproduzido ou supercalculado. “The day the music dies” poderia ser muito mais comportada, mas a banda não se deixa chegar a perfeição – e esse é o maior traço punk que carregam.

A voz de Rønnenfelt sofreu uma mudança considerável nesses quatro anos que separam o disco anterior deste novo. Em Plowing…, o cantor dava pouco espaço para o instrumental e tentava colocar sua voz grave e arrastada a serviço de linhas melódicas que pareciam emular um Nick Cave oitentista e sombrio, o que contribuía com o clima sufocante do álbum. Em Beyondless, Rønnenfelt está muito mais comprometido com a melodia. Não só sua voz está menos corrosiva, mas inclusive o timbre é mais bonito. É claro que em Plowing Into The Fields of Love havia toda uma estética mais soturna a se respeitar, mas, de forma geral, o quarteto e seus músicos convidados soam melhor.

A maturidade vai se desenvolvendo de forma completa para a banda. As gravações ficam melhores e a procura de novos caminhos – sabendo lidar com as escolhas – é um norte que faz do álbum um produto interessante, comercialmente viável e instigante. Faixa após faixa, eles querem que você continue na vibe saturada de canções como “Hurrah” e “Pain Killer” [com Sky Ferreira], o western de “Under the sun” e o blues rock nickcaveano do ótimo single “Catch it”, o fusion de “Showtime” e a beleza de “Take it all”, talvez a música com a mixagem mais bem cuidada para que todos os elementos atmosféricos garantam seu espaço.

Da garagem ao crescente profissionalismo, Iceage vai mostrando que são um dos grupos de jovens músicos mais interessantes da Dinamarca e que sabem amadurecer junto com o público e a carreira.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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