“Death Lust” é uma ode aos jovens que sofrem

Chastity – Death Lust [2018]

Por Lucas Scaliza

O rock morreu, eles dizem. Portanto, o que anda por aí deve ser algum tipo de zumbi. E nada melhor do que uma criatura meio morta, mas ainda animada, para falar sobre a morte. Ou sobre as emoções de uma juventude obcecada e mesmerizada pela morte.

O rock da banda Chastity, liderada pelo canadense Brandon Williams, é pungente, para dizer o mínimo. “Children”, que abre Death Lust, tem um peso absurdo para uma banda de apenas quatro membros. Nunca uma Fender Jazzmaster soou tão death metal no indie rock – [é claro que esse resultado se deve a três fatores: 1. Afinação mais baixa da guitarra; 2. Guitarra dobrada em estúdio; 3. Utilização de um amplificador possuído por Belzebu]. “Vivendo minha morte / Com todo mundo / A imundície de um homem é a minha riqueza”, canta. Um zumbi, portanto, o compositor e o rock que serve de veículo para esses versos e sentimentos.

“Fuja de casa para uma melhor”, diz Williams antes da acelerada “Choke” tomar seus ouvidos entre o punk e o grunge que dá vazão para versos tão intensos e contestadores como “O corpo não é um templo/ Nada é simples assim”, “Quão livre deve-se ser para não sentir nada?” e “Sou a mancha que não vai sair / O ódio que fica na sua boca / O dia que papai partiu / O ano que mamãe se afogou”.

A negatividade das letras certamente combina com o som desesperado. O rock, morto como dizem estar, ainda é um meio extremamente potente de emoldurar certas coisas. Os sentimentos que Brandon Williams joga para fora com o Chastity não são fáceis de engolir, mas ao mesmo tempo são facilmente encontrados em uma vasta parcela da população jovem do mundo. Não importa o quão dissonante “Negative With Reason To Be” seja ou se “Chains” é mais assombrada que muito filme de terror. De alguma forma, a vociferação é transportada com sucesso pelos acordes distorcidos e nos causa empatia.

Apesar de toda a raiva e peso, o centro do álbum é o indie rock “Heaven Hell Anywhere Else”, a música mais comercial de Death Lust, a mais bonita e a que diz verdades mais afiadas entre dedilhados e um ritmo gostoso de acompanhar. “Quem atou meus dias com a dor?” é o verso que resume o álbum. “Não importa o que você faça, as crianças vão encontrar as drogas / Os helicópteros no céu não serão suficientes para nos deter / A serotonina me liberta”. O comentário social de Chastity se confunde com aquela vontade de morrer, tão próxima e tão terrível.

Death Lust fala principalmente à juventude entediada e sem muitas perspectivas que vive em locais onde a vida parece não pulsar com tanta vibração. Jovens como os de Whitby, cidade de Williams, um subúrbio de Toronto que serve como local que abriga usinas e fábricas que abastecem a metrópole mais universalista.

Vale a pena dar uma olhada nos vídeos da banda, totalmente focados em uma juventude que está ali apesar de parecer que ninguém se importa. Ou talvez ninguém se importe mesmo e não pare para entender os conflitos secretos que esses jovens enfrentam dentro de suas próprias mentes. Os jovens que tatuam o símbolo do Superman atrás da orelha e se encantam no parque de diversões são os mesmos que colocam um saco plástico na cabeça ou tocam fogo numa igreja. “A tristeza é o perigo de ser jovem / Sonhando com os dias que virão / Quero passar por eles até chegar em você”, diz ele, sobre um amor perdido ou um ente falecido, quem sabe, na bonita “Come”. É de vontades e de alertas que o zumbi tira sua animação.

Death Lust é a trilha sonora para todos aqueles que um dia se cortaram com uma navalha para expressar alguma coisa, ou para todos aqueles que nunca chegaram a se mutilar de alguma forma, mas entendem como alguém chega a esse ponto. Não por acaso, o lançamento do álbum foi feito com um show em um celeiro nos arredores de Whitby e toda a renda foi doada para entidades de saúde mental. Graças a Brandon Williams, o tal celeiro [apelidade de Ashburn Green] está se convertendo em um ponto de encontro da moçada de Whitby para curtir um som de várias bandas que estão no esquema “faça você mesmo”. Williams sabe que há solução, afinal, e encontra a esperança em sua comunidade e em seu caminho até o fim de Death Lust.

A banda não precisa de muito para passar sua mensagem. Das 10 músicas, seis têm apenas dois minutos. Não parecem inacabadas e nem apressadas. A urgência é tão saturada que domina a percepção. E se em dois minutos o Chastity já consegue ser tão demolidor com as imagens que cria em sua cabeça com som e letra, talvez seja melhor mesmo não prolongar muito a experiência. Death Lust é conciso. Uma amálgama de shoegaze, punk, grunge, hardcore e indie que merece ser conferido bem de perto, o bastante para que nós, como ouvintes, tenhamos o vislumbre do abismo que Williams parece encarar o tempo todo. E assim, podemos olhar o problema que ele evidencia não com espanto e recusa, mas com a solidariedade necessária pelos que sofrem.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Anderson Tissa

    (17 de julho de 2018 - 09:13)

    Mais um excelente texto. Você é foda, Scaliza. =)

      Lucas Scaliza

      (17 de julho de 2018 - 10:08)

      Poxa! obrigado, Anderson! Esse disco realmente fez a diferença para mim.

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