Ainda mais multicultural, Melody Prochet subverte regras em “Bon Voyage”

Melody’s Echo Chamber – Bon Voyage (2018)

Por Gabriel Sacramento

É sempre muito interessante acompanhar qualquer coisa que Melody Prochet se proponha a fazer. Sua musicalidade rompe com as barreiras do óbvio e do comum para proporcionar experiências transcendentes aos seus ouvintes, explorando uma diversidade musical e cultural e buscando inspiração do desconhecido e do sublime. E parece estar sempre em ascensão: não há limites para a francesa e para sua criatividade na hora de buscar elementos sonoros e misturá-los esquisitamente. A fluidez com que ela transita do francês para o inglês em seus trabalhos segue a fluidez com que alterna entre subgêneros e tendências, subvertendo regras, alternando entre dimensões e planetas e imaginando saídas malucas para chocar seu ouvinte.  

E se em Melody’s Echo Chamber (2012), o ótimo debut produzido magistralmente pelo Kevin Parker do Tame Impala, ela enveredou por um pop psicodélico e espacial, em Bon Voyage, Melody está mais próxima da World Music. O segundo disco foi produzido em conjunto por ela, Fredrik Swahn e Reine Feiske e mixado por Maxime Leguil – engenheiro que trabalhou no A Moon Shaped Pool (2016) do Radiohead. Um time diferente para buscar um som diferente.

Mas não é só sobre World Music. Bon Voyage também incorpora elementos de polifonia barroca – lembrando muito a Björk em muitos momentos -, folk, rock psicodélico, pop progressivo e, até mesmo, tropicália. É uma verdadeira salada que não dá a mínima para fronteiras regionais e busca, em uma pangeia musical, a essência da expressão da francesa. Os produtores surpreendem com uma abordagem totalmente livre e instável, com as faixas tomando rumos inesperados em praticamente todo o tempo. Os arranjos são extremamente densos e repletos de ideias intercaladas, que competem e chocam entre si, conferindo uma forte autoralidade e singularidade ao play.

“Cross My Heart” lembra esse estilão progressivo de pensar arranjos com a base absurdamente dinâmica variando rapidamente e uma profusão de ideias diferentes. É perceptível um pouco do dream pop da Melody, só que envolto em uma forma de expressão maior, mais complexa e ambiciosa. No meio de toda a balbúrdia de ideias, que mais parece um grande brainstorming sonoro, Melody e seus produtores colocam flauta, guitarras, percussão, baixo, sons naturais e vários outros elementos para conviverem juntos como em uma mesma sala, cada um com seu idioma nativo e suas especificidades. “Breathe In, Breathe Out” começa com uma pegada de rock, que depois, obviamente, muda para algo menos definido.

Esse disco exemplifica perfeitamente o que chamo de “música abstrata”. Uma forma de música difícil de catalogar, que segue caminhos inusitados, misturando água e óleo de uma forma progressiva e que não se prende de jeito algum à regras de gêneros. De certa forma, me lembra alguns outros álbuns difíceis que ouvi recentemente como o Boarding House Reach do Jack White e o próprio Utopia da Björk, mas possui claras diferenças e suas próprias idiossincrasias. Uma música que considero abstrata é uma que não segue nenhum conceito definido, nem em termos estéticos, nem em termos puramente musicais, e Bon Voyage faz isso com muita presença, com uma perfeita retórica, que não deixa dúvida quanto a sua autoridade como uma forma de arte.

Outro aspecto que merece menção, especificamente com relação ao trabalho dos produtores com o mixer Maxime Leguil, é a edição. Um disco como esse, assim como o Boarding House Reach, precisa ser compreendido como um exercício de compilação de ideias malucas que segue um fluxo livre guiado pelas próprias ideias. Há uma ênfase muito grande em seções específicas, mais do que no todo, por isso, temos uma série de elementos sobrepostos e pequenas faixas que entram em momentos específicos complementando muito bem o conjunto.

Bon Voyage requer várias e várias audições dedicadas para que consiga, de fato, comunicar algo ao seu ouvinte. Exaltando o poder do inesperado e da falta de controle excessivo, o novo disco é importante para a carreira do Melody’s Echo Chamber e para a música europeia e mundial no geral. Mesmo que ainda esteja associada ao movimento psicodélico, de DIIV, Tame Impala e Pond, Melody Prochet mostra que sua musicalidade é maior que isso.

Foto: Burak Cingi

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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