Supergrupo The Sea Within estreia priorizando o feeling

The Sea Within – The Sea Within [2018]

Por Lucas Scaliza

Desde que o The Sea Within foi anunciado, uma coisa era certa: não havia como vir coisa baixo da média da banda. O novo supergrupo de rock progressivo é formado apenas por estrelas do gênero. Alguns deles já foram companheiros de banda [várias vezes em mais de uma banda] e outros estão no jogo há tanto tempo que não haveria como algo dar errado. E o álbum The Sea Within, para além de questões de gosto, já nasce como um trabalho maduro e sofisticado, calcado no talento de artistas calejados e experientes.

Roine Stolt [guitarrista, The Flower Kings, Transatlantic e diversas outras bandas e projetos] se uniu ao baixista Jonas Reingold [The Flower Kings, Steve Hackett, Karmakanic, The Tangent] e ao vocalista e guitarrista Daniel Gildenlöw [Pain of Salvation, Transatlantic, ex-Flower Kings]. Todos suecos. O time é reforçado pelo tecladista americano Tom Brislin [Meat Loaf, Yes, Spiraling] e pelo baterista alemão Marco Minnemann [The Aristocrats, The Mute Gods, Steven Wilson, Joe Satriani, Paul Gilbert]. Como se não fosse o suficiente, as participações especiais envolvem o lendário cantor Jon Anderson [Yes], o saxofonista inglês Rob Townsend [Steve Hackett], o cantor e guitarrista americano Casey McPherson [Flying Colors] e o tecladista Jordan Rudess [Dream Theater].

Ashes of Dawn é uma abertura de respeito e que mostra um rock progressivo que parece querer esticar suas garras até o metal, mas nunca chega lá. O solo de saxofone tenor de Rob Townsend dá ainda mais vida à canção e a ajuda a não ficar presa a clichês do gênero, embora não seja de hoje que o prog incorpore sax de jazz. “They Know My Name” é uma balada contida que chega a um glorioso refrão que libera a voz de Gildenlöw para conseguir um efeito de dinâmica bastante emocionante. O baixo poderia apenas seguir a harmonia geral da canção, mas Reingold não se contenta com isso e encaixa várias notas para enriquecer o substrato da faixa. A guitarra de Stolt, o Pale Rider, serve como textura antes de entregar um solo que, como a faixa, também é contido e se recusa a cair em fraseados mais comuns.

“The Void” é outra música contida e de desenvolvimento lento. A escolha de notas para cada instrumento é muito rica, mas não chega a atenção para si. O solo de sintetizador de Brislin é o momento mais interessante da canção. “An Eye for an Eye for an Eye” entrega, enfim, um prog mais vigoroso com pitadas de hard rock. O solo de piano jazz é maravilhoso (e preste atenção no baixo ao longo do solo. Reingold sabe das coisas].

Está no livro de regras do prog que um disco do estilo precisa ter pelo menos uma música enorme. E como o The Sea Within toca “by the book”, cumprem essa regra com “Broken Chord”. O legal é que ela não começa toda pretensiosa, como se te preparasse para uma jornada épica. É bem leve e feliz seu primeiro ato, fazendo dela a mais simpática do disco inclusive. É claro que ela não continua assim o tempo todo, e vai diversificando seus humores, chegando ao fim de forma cinematográfica até, e com participação de Jon Anderson. Não é uma canção metida a besta ou que pretende ser um novo clássico do prog com mais de 10 minutos. “Hiding The Truth” parte de onde “Broken Chord” termina com Casey McPherson nos vocais e uma vibe muito mais folk rock, lembrando bastante o trabalho menos prog de Neal Morse.

A versão deluxe do disco contém mais quatro músicas que, juntas, passam dos 25 minutos. Vale a pena não deixarem passar, porque alguns dos momentos mais instigantes que a banda NÃO produziu dentro do setlist principal do álbum estão nesse bônus.

Como há muitos membros do Flower Kings envolvidos, havia o medo de que o supergrupo ficasse muito parecido com a banda sueca. “Sea Without” é a única faixa que realmente parece saída do TFK. De resto, as linhas de baixo de Reingold nos transportam diretamente para outras linhas incríveis que ele produziu para a banda e o mesmo pode ser dito de Roine Stolt, principalmente quanto aos seus fraseados para fills e o timbre geral da guitarra. As composições do TSW não se parecem com o que o TFK já produziu, então nossa lembrança da banda original do guitarrista e baixista fica restrita à técnica dos músicos que já estamos acostumados.

Mesmo sem apelar para vocais altos ou vocais que exigem muito drive ou pressão, a voz de Gildenlöw faz uma diferença absurda. Seu timbre de voz é realmente algo único que a Suécia produziu e entregou ao mundo. O instrumental também não apela para virtuosismos a torto e a direito. Há sofisticação técnica, mas é notável como a maior preocupação é com o feeling de cada canção, dando espaço para que todos se expressem sem precisar encavalar um solo frenético em cima do outro ou na mesma faixa.

O The Sea Within também consegue não cair nos excessos que acometem, em certo sentido, o Transatlantic, outro supergrupo do progressivo internacional. Porém The Sea Within não deixa claro ainda qual é a marca do grupo e suas características únicas. As faixas são boas, bem compostas e elegantes, se recusando a ser totalmente previsíveis, dando inclusive uma cara AOR ao álbum. O The Mute Gods, projeto de rock/pop do baixista e vocalista Nick Beggs com o tecladista Roger King e também com Minnemann na batera, conseguiu uma coesão estilística bem maior logo na estreia, escolhendo uma abordagem do prog que poucas bandas praticam.

Assim, não se trata do álbum mais surpreendente possível, justamente porque cada membro faz o que já se esperava deles como instrumentistas que possuem um vasto catálogo no currículo. Feito sob medida para quem já está catequizado na igreja do rock progressivo.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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