Demonaz assume Immortal e mostra como [ainda] se faz

Immortal – Northern Chaos Gods [2018]

Por Lucas Scaliza

Às vezes há separações em grupos musicais que acabam fortalecendo as partes, ou pelo menos uma das partes. O Titãs, por exemplo, respondeu à saída de Paulo Miklos com o belo Doze Flores Amarelas, álbum criativo e roqueiro, cheio de mensagens urgentes que refletem nossa sociedade. À morte de Cliff Burton, seguiu-se …And Justice For All [1988], disco de produção mais seca e composições de thrash metal longas e complexas do Metallica. O Immortal, uma das bandas mais clássicas e mais representativas do black metal norueguês dos anos 90, perdeu seu vocalista e guitarrista Abbath Doom Occulta, que acabou misturando black metal e progressivo em sua estreia solo, Abbath [2016].

Demonaz Doom Occulta, o guitarrista remanescente criativo da banda, agora faz de Northern Chaos Gods não apenas um ótimo disco de black metal old school. É uma declaração de vida longa ao gênero da forma como o Immortal ajudou a cristalizar no cenário da música extrema. Os “deuses nórdicos do Caos” são os próprios integrantes da banda, deixando claro que não é a falta de seu icônico vocalista que vai abalar a qualidade sonora do grupo.

Enquanto Abbath sempre foi constante na formação do grupo, tendo saído apenas em 2015, Demonaz/Harald Nævdal deixou suas funções nas seis cordas em 1997, após o curto álbum Blizzard Beasts ser lançado e ser diagnosticado com tendinopatia aguda. Tocar na velocidade exigida pelo black metal praticado pelo grupo apenas piorava sua doença. Nenhum dos quatro álbuns lançados entre 1999 e 2009 teve sua participação nas guitarras, mas ele continuou a fazer letras, atuar como empresário e até a aparecer nos vídeos do Immortal. Não é apenas uma volta da banda em 2018 que estamos testemunhando. É a vontade de manter um legado vivo e afirmar sua importância como artista da música extrema.

Se o fim do Immortal tiver que ser escrito com o suor, as lágrimas, o sangue e uma tendinite ainda mais severa causada por Northern Chaos Gods, a banda encerrará sua missão nesse mundo por cima. O álbum é uma pedrada atrás da outra, com direito a vocais infernais de Demonaz ao longo de todas as nove faixas e a bateria supercompetente de Horgh [que também toca com os suecos do Hypocrisy]. O baixo e a produção ficaram a cargo do sueco Peter Tägtgren, parceiro de Horgh no Hypocrisy e dono do estúdio The Abyss, onde NCG foi gravado.

Em 2013, Nævdal passou por uma cirurgia que o permitiu voltar a tocar. E ele toca como se quisesse tirar o atraso. Apesar da visceralidade galopante, nem todas as faixas são ultrarrápidas. Mas há momentos em que ele prova que os anos não amoleceram sua técnica [como em “Called to Ice” e na brutal abertura “Northern Chaos Gods”]. “Mighty Ravendark”, com quase 10 minutos de duração, é o maior petardo do álbum. Demonaz reproduz técnicas já bastante conhecidas do black metal, mas faz tudo com um vigor tão grande que é impossível não se render à faixa. Marcas estilísticas clássicas do compositor continuam vivas, como letras que descrevem paisagens sombrias e gélidas e mais um capítulo da narrativa sobre a fictícia Blashyrkh, um inferno de gelo que sempre serviu de metáfora para Bergen, a cidade natal da banda, cercada de montanhas e com chuvas frequentes.

A guitarra de Abbath faz falta no sentido de complementação. É fácil perceber que caso o músico ainda estivesse a bordo, as faixas poderiam ter uma riqueza de timbre ainda maior. Mas Northern Chaos Gods não foi pensado com o ex-membro em sua formação e Demonaz e Horgh, com a ajuda de Tägtgren, conseguem fundir o black metal norueguês tradicional com algumas tendências mais contemporâneas sem parecerem uma cópia de si mesmos e sem soarem passadistas. O disco é coisa séria!

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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