Deafheaven segue fazendo música boa e triste para amar e odiar

Deafheaven – Ordinary Corrupt Human Love [2018]

Por Lucas Scaliza

De São Francisco vem uma das bandas mais diferentes e ousadas de todo o cenário black metal. Depois de ganharem notoriedade com Sunbather [2013], o Deafheaven expandiu um pouco mais suas ondas sonoras em New Bermuda [2015], ficando populares o suficiente pra embarcarem em uma extensa turnê – que inclusive passou pelo Brasil. O novo disco, Ordinary Corrupt Human Love, encontra novas formas de desafiar os limites do metal e mesclá-lo ao shoegaze – uma mistura que já é conhecida como blackgaze –, mas a banda dá um passo além e acrescenta boas doses de indie rock ao repertório desta vez.

Mesmo com toda a abertura sonora dos 15 últimos anos, que trouxe ao black metal passagens mais atmosféricas, flertes com o progressivo e uma busca muito maior pela qualidade artística e não só pela danação sonora, algumas barreiras sempre se mantêm em pé, sobretudo com os fãs mais conservadores do estilo. Mas veja só: o black metal existe justamente para ir contra noções conservadoras. Portanto, ser um aguerrido fã do “velho jeito norueguês de tocar” é se acomodar e não contestar mais nada.

O Deafheaven é um quinteto interessante justamente por não tratar o black metal, ou o blackgaze, como uma doutrina. “You Without End” começa com um piano que poderia muito bem ser a introdução de uma música da Adelle. Até o disco anterior, as passagens mais shoegaze ou mais indie ficavam bem localizadas dentro da estrutura sonora de cada canção. Neste quarto álbum, eles continuam seguimentando suas canções, mas desta vez há uma maior mistura de técnicas. Blast beats na bateria são acompanhados de guitarras estelares do shoegaze. Riffs secos, dissonantes e martelados [tão próprios do black metal] podem ser sucedidos por fraseados muito mais leves e melódicos. O vocal de George Clarke continua esganiçado e agressivo como sempre, mas agora aparece também por cima de momentos mais roqueiros e menos metaleiros.

Kerry McCoy e Shiv Mehra, que respondem pelas guitarras da banda, estão destemidos lançando mão de solos, temas e fills que dificilmente são vistos em bandas de metal extremo tradicionais. “Glint” é a faixa que melhor exemplifica essa amplitude e essa ousadia. Outra das quebras com as regras aparece em “Night People”, totalmente indie e com vocais limpos de Clarke e da convidada Chelsea Wolfe. Em “Worthless Animal”, Clarke ainda canta grunhindo, mas de forma mais arrastada, com menos pressão e velocidade, acompanhando o primeiro ato bastante emotivo da música.

Ao trabalhar com três ou quatro vertentes do rock e do metal, o Deafheaven parece muito mais à vontade em Ordinary Corrupt Human Love em borrar a fronteiras dos gêneros do rock  e migram de um para o outro com desenvoltura. É claro que os anos acabaram deixando-os mais experientes e confiantes. Continuam sendo um peixe fora do aquário no cenário mais geral do rock e do metal, mas o blackgaze neste quarto trabalho da carreira da banda está ainda mais comprometido com a exploração formal do que antes.

Produzido por Jack Shirley, que está com a banda desde a primeira demo em 2010, quando apenas George Clarke e Kerry McCoy eram a banda, o disco alterna entre a depressão acachapante dos rompantes metaleiros com partes que evocam reações emocionais instantâneas do ouvinte. Brincar com esses contrastes é algo que o Deafheaven vem fazendo há oito anos; com um disco mais longo que os anteriores, e ainda mais a vontade para propor passagens de indie rock e solos melodiosos, fazem de Ordinary Corrupt Human Love o melhor exemplo de como o blackgaze é um terminologia que caía bem até New Bermuda. O novo álbum dá mais espaço para novos elementos, ficando impossível fingir que não estão ali ou que são apenas episódicos.

Com a boa resposta de crítica e público para Sunbather, a mudança para o selo ANTI- fez com que a composição e gravação de New Bermuda tivesse que ser apressada. A coesão da banda naquele ponto ajudou a fazer um grande álbum. Desta vez tiveram mais tempo para planejar tudo e, embora ainda seja possível pegá-los repetindo mais uma vez a manjada técnica dos blast beats com guitarras-que-mais-parecem-moto-serras por cima, há uma variação muito maior de técnicas.

A não usa quase nenhum aditivo de estúdio para encorpar as canções. Teclados, orquestrações e sintetizadores serviriam muito bem à proposta da banda para preencher suas músicas, mas no máximo temos algum piano a mais e apenas um efeito ou outro de pós-produção. O Deafheaven ainda mantém a proposta de fazer uma música bastante orgânica que soe realmente como cinco caras tocando juntos e quase nada além. Até mesmo o coral de vozes em “Canary Yellow” é limpo e um tanto lo-fi, sem a pompa que geralmente esse tipo de arranjo vocal ganha principalmente com produções profissionais. Já “Near” lembra alguns sons recentes da banda de pós-rock Mogwai.

A banda continua não falando de demônios em suas letras e nem se apresentam com corpse paint ou trajes mais fantasiosos. Do black metal mesmo, o que sobra é o vocal gutural de George Clarke. Os blast beats do baterista Daniel Tracy são escassos ao logo de Ordinary Corrupt Human Love, mas cumprem bem seu papel. Não se preocupe com “os hipsters que agora vão dizer que ouvem black metal”. Em grande medida, a sonzeira depressiva [e linda!] feita pela banda continua sendo indigesta para a maior parte do público. Não é agora que a banda vai dar um passo para dentro do mainstream. Seja para amar ou odiar a direção que vai trilhando, o Deafheaven continua fazendo músicas boas e tristes.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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