Ava Rocha evoca mística e ancestralidade em “Trança”

Ava Rocha – Trança [2018]

Por Lucas Scaliza

Ava Patrya Yndia Yracema não é um capítulo isolado na carreira de Ava Rocha. Dizer que Trança, seu terceiro álbum solo, é esteticamente diferente do segundo significa excluir o que é a estética em si. Aliás, se o segundo álbum tinha a palavra “Yndia” no título, é neste terceiro em que a vemos ainda mais em comunhão com o indigenismo filtrado por sua música que é popular brasileira, da estirpe de Gal Costa, psicodélica, pop, com lampejos de rock e até de batidão funkeiro. Em outras palavras, Trança não apenas amplia o que já havia de mais pungente na proposta de Ava logo em sua estreia, com Diurno [2011], mas também fortalece sua estética, que é não se prender a um gênero musical e ter um discurso de contracultura, fornecer opiniões com sua música e, assim, ser também uma artista política. Todos esses elementos compõem a estética de uma artista, e não apenas o tipo de deslocamento do ar que promovido por seus fones e speakers.

Com gravações divididas entre o Rockit!, no Rio, e o Red Bull Studios, em São Paulo, Ava Rocha contou com a produção de Fabiano França e Eduardo Manso, além da direção artística de Negro Leo, para chegar às 19 faixas e mais de uma hora de áudio de Trança. Por mais que o papel da composição se mostre fundamental nesta trajetória que a artista vem construindo, a produção é definitiva para que ela consiga tomar a ancestralidade que evoca – como todas as referências indígenas, por exemplo – e leva-la a outros territórios que se acomodem ao fluxo da música moderna, no Brasil e no mundo, sem que a referência pareça gratuita ou mastigada demais. E ela consegue, com louvor, fazer o disco ter toda a presença indígena e mística que pretendia, assim como ousar em diversos outros gêneros e, ainda assim, fazer de Trança um produto perfeitamente coeso.

Foto: Diego Ciarlariello

Se Gal Costa é uma referência que pode ser evocada para tentar dar a dimensão do que é a arte de Ava Rocha desde seu primeiro trabalho, com este segundo podemos citar também Milton Nascimento, outro que conseguiu com muito tato incluir a música indígena em sua música mineira e universal.

Em uma entrevista para o Estadão, Ava cita a música “Pangeia”. Foi a primeira a ser composta, logo após a morte do amigo Tunga, e que deu a toada para o que Trança seria. A ideia de união e de grande extensão, presente no termo pangeia, se revela na longa duração do álbum e nas 35 participações especiais evidenciadas pela ficha técnica.

A tapeçaria envolvida no trabalho é complexa, mas Ava e sua produção vão trançando fio a fio com cuidado, sempre oferecendo uma provocação nova ao ouvinte. “Maria não é virgem, mas há quem acredite”, canta em “Lilith”, música em que escolhe uma figura mitológica negada pelo cristianismo como modelo feminino. “Não tenho coração para dentro da razão que sempre me afasta de gozar com as mãos”, diz no quase iêiêiê de “Singular”. “As fumacinha do pecado eu tô tragando”, manda em “Joana Dark”, música a um só tempo sobre drogas e a figura da mulher, talvez uma das músicas mais contrassenso comum que o Brasil produzirá este ano.

Mas é só em letras que o disco se revela. Praticamente todas as músicas possuem uma trajetória musical interessante e rica em arranjos. “Continente”, por exemplo, paga um tributo enorme à MPB clássica dos anos 70, com dedilhado de violão e toada no refrão que lembra principalmente a turma de Minas. Mas há outros elementos que fazem parte da canção que a levam para um universo diferente. E “Patrya”, logo depois, não poderia ser mais diferente: guitarra funk, batidão que parece eletrônico, mas feita com percussão e bateria acústica, sintetizador sessentista, e por aí vai. São muitas colagens.

Há mais curtição em diversas das novas músicas, usando a psicodelia e um senso pop para transformar certas canções em peças mais festivas. “Frio” surge como uma das faixas mais leves do álbum e “Anjo do Bem” é mais psicodélica que os Boogarins.

Em seu lançamento, Ava Patrya Yndia Yracema era um disco único entre o que vinha sendo produzido no país. Trança repete o feito. Sabe a hora de pesar a mão e a hora de entregar algo mais acessível. Sabe empregar a poética para fazer crítica social em música pop e se fazer entender. Cria e resgata em igual medida, dando liberdade criativa para a banda surtar se for preciso. Ela abraça o caos, é verdade. Mas veja: era uma pangeia, cuja capilaridade de poéticas, assuntos e estilos deram origem a uma trança, como se a massa de ideias brutas tivesse sido filtrada pelo processo de produção. É natural que nem todos os fios sejam do mesmo comprimento ou da mesma tonalidade, mas juntos aparecem como parte de uma única obra que tem um sentido muito próprio de ser.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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