“Scorpion” é uma overdose de um Drake redundante e auto-indulgente

Drake – Scorpion (2018)

Por Gabriel Sacramento

Este é o terceiro ano consecutivo que eu escrevo sobre o Drake aqui no site. VIEWS de 2016 me desapontou bastante, embora eu goste até hoje de “Hotline Bling”, e More Life (2017) me surpreendeu e me fez enxergar o artista de uma forma diferente. Scorpion é seu novo álbum duplo de 25 músicas, e eu já o esperava com certo receio. Para quem já está pensando em criticar o tamanho do álbum, existe uma justificativa para isso: o lado A é mais focado no hip-hop e o B, no R&B. 

O que me agradou tanto em More Life foi justamente a ousadia do artista em explorar uma cultura diferente e sonoridades diferentes do seu R&B/hip-hop típico. Por isso em comparação com a “playlist” do ano anterior, Scorpion perde bastante já que investe nas mesmíssimas fichas que fizeram o sucesso do rapper, martelando-as 25 vezes de uma forma pretensiosa e auto-indulgente sem nem mesmo uma abordagem diferente. O buzz que acompanhou o seu lançamento só confirma que a música pop está se tornando cada vez dependente das grandes marcas que produzem e menos do seu conteúdo (não vou nem comentar o fato do Spotify ter colocado a foto do Drake em todas as suas playlists principais da home page).

O álbum conta com a parceria de produtores como Noah “40” Shebib, PartyNextDoor – que já tinha trabalhado com o canadense – e T-Minus, que trabalhou no More Life. Possui participação de Jay-Z, Ty Dolla Sign, Nicki Minaj e, pasmem, Michael Jackson. Isso mesmo, o Drake regravou e acrescentou vocais a uma canção inacabada do gênio do pop, “Don’t Matter To Me” – mais ou menos como o Timberlake fez com “Love Never Felt So Good”.

Bases minimalistas, trap, rap e melodias são usados da forma menos criativa e inspirada possível, exatamente como mandam as regras. Poucas são as faixas que realmente se destacam e elas estão bem mais concentradas no lado A.“Talk Up” é marcada por boas pausas no beat que ressaltam as letras e por uma boa participação do Jay-Z com um contraste de timbres bem interessante; já “Is There More” possui uma base totalmente viajante e esparsa, enquanto a voz sólida do Drake põe na mesa clichês de canções de hip-hop e questiona se o estilo deve ser só isso, em um tom reflexivo; “Elevate” mistura boas rimas, melodias marcantes e boas transições entre a voz cantada e a rapeada; “Survival” e “Emotionless” impactam pela crueza do flow; e outra que vale menção é “March 14”, na qual o rapper se abre sobre sua vida pessoal e sobre seu filho, que ele assume enquanto reconhece a dificuldade de ser um pai solteiro.

Aliás, sobre essa última, é interessante que o canadense resolveu quebrar o sigilo da sua vida íntima e se expor para os ouvintes. Isso é sempre muito bom. Mas além da transparência, é notável que o fato do Drake, uma pessoa influente, trazer à tona esse assunto é bom, pois carrega consigo reflexão e discussão. E mesmo que explore um tema difícil para ele mesmo, falta-lhe um pouco do que faltou ao seu conterrâneo The Weeknd no seu My Dear Melancholy, (2018): uma sinceridade maior que abrangesse também as escolhas musicais. Ao contrário de “March 14”, em outras faixas, o rapper destila clichês típicos de álbuns de hip-hop/R&B, como falar da sua ascensão social e de relacionamentos amorosos.

O resto do álbum é bem desnecessário. A própria “Don’t Matter To Me” soa como uma faixa inacabada na qual Drake canta do mesmo jeito aveludado que canta sempre e nem mesmo ouvir a voz aguda do MJ salva o resultado. Aliás, as melodias do refrão deixam claro que a música tinha, sim, um potencial, mas é estragado por uma base etérea que não combina em nada com a voz do astro americano. Fora o fato de que a voz do MJ soa bem estranha, carregada de efeitos que removem um pouco de sua essência humana. Outras faixas como “Ratchet Happy Birthday” deixam evidente que a forma como o Drake interpreta as canções mais climáticas e melódicas é chata e beira à apatia em muitos momentos. É como se o rapper estivesse totalmente desinteressado em cantar seu próprio material. Falta paixão e empolgação.

Scorpion não inaugura nenhum problema na carreira do Drake; todas essas questões discutíveis do seu som sempre estiveram presentes. Sua carreira continua uma gangorra, totalmente irregular, embora a aceitação de seus trabalhos seja sempre unânime por parte dos seus fãs. Embora algumas faixas sejam realmente boas, desta vez não temos um hit tão poderoso e memorável quanto “Hotline Bling” ou “Started from the Bottom”, e o perigo iminente é justamente um futuro esgotamento total de inspiração que leva à autorreferência vazia. 

O G.O.O.D music, selo do Kanye West, vem mostrando como o hip-hop se dá bem quando é conciso, seco e direto com sua mensagem. Lançou esse ano discos como Daytona do Pusha T, Ye do Kanye e o Kids See Ghosts do grupo homônimo que possuem sete faixas cada um. Além do pequeno número de faixas, o espírito experimental predomina sobre os discos, que possuem direcionamentos distintos e fogem de uma fórmula quadrada pop e comercial. Em contraponto com o que o West vem fazendo com seu selo, Scorpion representa uma overdose redundante de um gênero que já provou várias vezes que pode ser muito mais que isso.

Foto: Harmony Gerber

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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