Florence + The Machine chega a maturidade morna

Florence + The Machine – High As Hope [2018]

Por Lucas Scaliza

Aquela que surgiu como uma feiticeira inglesa, trazendo para o pop harpas, uma percussão marcante e uma voz única, munida de uma cênica de palco que remetia a algo místico, agora parece chegar à maturidade deixando vários desses artifícios de lado. How Big How Blue How Beautiful [2015] já era muito mais pop, recheado de grandes refrãos e boas músicas que atingiam seu objetivo muito rapidamente.

High As Hope, em comparação, mostra Florence Welch e sua banda, The Machine, buscando se expressar sem a mesma efusividade de antes. A trinca “Big God”, “Sky Full of Song” e “Grace” confiam na sensibilidade do ouvinte e nos detalhes [como a orquestração leve, o piano delicado e o timbre do baixo vertical] para tocar seu ouvinte. Das 10 canções, apenas “Hunger” repete a mesma pegada de sucessos como “Dog Days Are Over”, “Shake It Out”, “No Light”, “Delilah” e “Ship To Wreck”. No geral, Florence busca se expressar com uma música que seja bonita e bem arranjada, que consiga elevar o espírito do ouvinte com variação dinâmica [como o refrão de “Grace”], mas sem implorar para que o público pule ou dance junto. “100 Years”, marca a harmonia com o piano discreto na mixagem e deixa a percussão – usando tanto bateria como palmas – criar o ritmo da canção. O naipe de cordas, a princípio repetindo um loop de quatro notas, vai dando mais corpo a ela e quando você dá por si mesmo, está no clímax mais celta do álbum, remetendo aos dois primeiros álbuns.

Para o quarto álbum, Florence + The Machine parece bem menos disposta a conquistar a qualquer custo e vai pelo caminho mais longo. “South London Forever”, “The End of Love” e “Choir” tiram sua força do quanto podem parecer canções excelentes do ponto de vista da composição e da letra, mas sem ganchos e temas musicais que acabem marcando a faixa e o ouvinte. Portanto, não espere ouvir temas superacessíveis como o de “Third Eye” em High As Hope.

Diferente dos outros álbuns, em que o processo de composição foi precedido de um período de descanso, de festas, de curtição e de bebedeiras por parte da artista, dessa vez ela foi direto para a labuta de escrever letras e pensar em harmonias assim que a turnê de How Big How Blue How Beautiful terminou. A atitude parece mais adulta e profissional? Sim, e High As Hope demonstra essa maturidade também. Nesta fase da vida, Florence afirma que cozinha para si mesma, se cuida mais do que antes, está sóbria, lê o máximo que pode [tem até um clube de leitura próprio] e adora seriados de TV. Mesmo no ápice de sua carreira, conseguiu se divertir no processo e não tratar a gravação como mais uma parte burocrática ou pesada do processo. E olha que ela passou seis meses apenas fazendo demos. Dog days are over, afinal.

Nenhuma das 10 canções do disco apresenta o famoso e esperado feat. Contudo, a ficha técnica revela que uma galera de peso, que muitos artistas adorariam ter como feat em suas faixas no Spotify, Deezer ou vinil, estão envolvidos no trabalho. Sampha, que é tão bom músico quanto produtor, o compositor de mão cheia Father John Misty, o jovem Jamie xx [do The XX e dono de uma ótima carreira solo], o talentoso canadense Tobias Jesso Jr. e nada mais do que Kamasi Washington, o saxofonista mais festejado da nova geração de jazzistas. Se não foi preciso feat é porque o acordo entre as partes decidiu que a participação dos músicos era mais “técnica” do que uma divisão de responsabilidades. Mas assim como o Foo Fighters em seu Concret And Gold, Florence + The Machine confia no próprio nome.

O disco é pessoal também, contendo uma música para sua irmã mais nova, uma música que remete ao suicídio da avó e até uma música para celebrar o sul de Londres, onde ela mora, lê Patti Smith e transformou seu banheiro em um altar para Frida Kahlo. A parte metafísica e mística da compositora está menos presente, embora a morte seja um tema que sempre aparece de alguma forma, mas nada que lembre a bruxaria de Ceremonials [2011] ou a vez em que ela pingou seu próprio sangue em uma garrafa, em cima do nome do rapaz de que gostava. Falando nisso, é claro que relacionamentos continuam fazendo parte da dieta de sua escrita. Mas em 10 de julho será lançado seu livro de poesias, que se chama Useless Magic.

Apesar de todas as curiosidades e detalhes que envolvem essa atual fase de Florence Welch e sua banda, High As Hope vai ser o disco adulto com a cara da adultescência dos 31 anos: bonito, importante para ela, mas morno, no fim das contas. Não traz uma mudança significativa, nem um novo posicionamento artístico e nem excitamento. Usa menos artifícios da música comercial, o que é bom, e a voz continua sendo memorável, mas o feitiço está mais em certos detalhes do que nas canções.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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