Com “New Devices”, o Roller Trio representa bem o jazz britânico emergente

Roller Trio – New Devices (2018)

Por Gabriel Sacramento

Muito se fala hoje em dia da cena de jazz de Los Angeles, de Kamasi Washington, Kendrick Lamar, do West Coast Get Down, Yellowjackets, entre outros. O jazz estadunidense da costa oeste misturou com o hip-hop, assim como um dia houve uma cena de jazz rap na costa leste, e se tornou massivamente popular. (falamos disso tudo no Episódio 85 sobre o Kamasi Washington.) Mas do outro lado do atlântico, há uma cena musical efervescente também: a do jazz britânico. Bandas/artistas como Blue Lab Beats, The Comet is Coming, Ezra Collective, Kamaal Williams e Sons of Kemet estão surgindo bem fortes e chamando a atenção para o gênero no país, tanto que já se fala até em invasão britânica nos outros lugares do mundo (fazendo referência à invasão dos Beatles nos 60s). E o melhor: o jazz à britânica não tem forma definida. Ele é urbano, é climático, é eletrônico, é dançante e até cósmico-espacial. O movimento tem sido caracterizado por um interesse de músicos jovens, independentes, que mesclam elementos do jazz que já conhecemos com a cultura dos clubes e da música típica das ruas.

Dentro desse caldeirão, o Roller Trio se destaca por possuir seu próprio jeito de cozinhar o  jazz. Composto originalmente pelo saxofonista James Mainwaring, pelo guitarrista/baixista Luke Wynter e pelo baterista Luke Reddin-Williams, o grupo já foi elogiado por Gilles Peterson e é descrito no próprio perfil do bandcamp como uma mistura de math rock e jazz. Isso se dá pelo uso da guitarra e dos efusivos riffs/solos de guitarra, que competem com o saxofone. Para o novo disco, Wynter foi substituído por Chris Sharkey.

New Devices é o terceiro trabalho deles, gravado no Trevor Jones Studio, com a engenharia de Ben Eyes, mixagem do Chris Sharkey e Alex Bonney e masterização do Peter Beckmann. E, sim, é sobre tecnologia. O grupo chama a atenção para os relacionamentos interpessoais conturbados das pessoas hoje em dia, o impacto das mídias sociais e, como denuncia a capa, para a questão da privacidade e vigilância. Esses últimos temas, aliás, que são importantíssimos e muitas vezes são ignorados por boa parte das pessoas, que nem sequer conhecem e reivindicam seus direitos.

É um disco experimental, que não deixa fácil para o ouvinte. Mas tem diferentes facetas, o que o torna mais complexo e ainda mais delicioso de degustar. É interessante notar uma certa independência entre as linhas de cada um dos músicos, que conversam, mas estão focados em desenvolver suas próprias contribuições. Assim, muitas das faixas podem ser encaradas por três pontos de vista diferentes. Cada um é mente pensante e cada um leva os arranjos a um lugar diferente. O efeito no ouvinte é como se a música pudesse dividir nossa concentração e fazer com que nossa mente esteja simultaneamente em três lugares diferentes no espaço. Um bom exemplo disso é “A Whole Volga” – destaco a brilhante e angustiante performance de Luke Reddin-Williams, que consegue fazer o kit praticamente falar.

Ou seja, antes mesmo de ser um esforço de banda, New Devices é um esforço de três músicos competindo entre si, mas a produção do álbum consegue tornar essa competição interessante de ouvir. Além do aspecto climático, o disco também se destaca pelo uso de texturas e sons eletrônicos esquisitos e inquietantes –  sendo o mais noisy deles até então. “Enthusela” possui uma série de sons agudos cintilantes, que contrapõem-se ao tema da faixa. Pensando no conceito do álbum, é como se vários celulares e dispositivos eletrônicos (câmeras, talvez) estivessem sendo estilhaçados. (Seria a versão sonora do grito de desespero da sociedade que, cansada de ser vigiada contra seu consentimento, resolveu acabar com os instrumentos das vigilâncias? Ou a versão sonora dos luditas do século XXI? Cabe a reflexão.) A forma exagerada com que Chris e Alex mixam isso, reforçando os agudos – o que fazem em “Mad Dryad” também -, deixa tudo ainda mais difícil para o ouvinte. O final de “Dot Com Babel” é marcado por ótimos timbres eletrônicos e efeitos no sax, ressaltando o aspecto tecnológico/nerd do álbum.

Os arranjos brincam com a expectativa do ouvinte, em alguns momentos com viradas inesperadas de clima, sempre com momentos para solos bem demarcados, já em outros, como em “The Third Persona”, com uma falta dramática de dinâmica. Mesmo que ameace, a faixa nunca cresce e permanece super climática e sorrateira.

Sharkey está bem mais focado no baixo nesse disco (é o disco menos guitarreiro dos caras), bem como em contribuir para as atmosferas que hipnotizam o ouvinte. No baixo, ele manda muito bem, pensando o instrumento como um forte norte rítmico e harmônico, mas também como um instrumento que merece destaque. Por exemplo, em “Milligrammar”, sua performance lembra a do Colin Greenwood do Radiohead em “Airbag”, do OK Computer (1997). Ele pensa o baixo como se estivesse separado da música, como se não estivesse nem sequer ouvindo os outros instrumentos, mas ao mesmo tempo o instrumento está lá sincronizadinho. James sabe muito bem quando aumentar a complexidade em suas frases e quando tocar para o clima, já o Luke varia com um timing excelente, quebra as pernas do ritmo sempre que pode e dá uma de Carlinhos Brown com uma variedade embasbacante de instrumentos e sons de percussão.

A mixagem no geral trabalha bem a relação entre os instrumentos, mas há um momento bem confuso no final de “Mad Dryad”, que até agora eu não sei se gostei ou não. Fiz questão de ouvir em três configurações sonoras diferentes – e em dispositivos diferentes – para ter a certeza de que o caos e a sensação de instrumentos embolados era uma característica da faixa em si. E é. Trata-se de um momento bem incômodo, mas que, assim como vários outros nesse disco, me atrai ainda mais para ele, e não o contrário.

Com New Devices, o Roller Trio propõe a reflexão acerca da tecnologia, que pode ser altamente destrutiva, com um som que destrói expectativas e experimenta sem medo de soar estranho e de não ganhar muitos likes. Um dos discos mais brilhantes de jazz que ouvi recentemente, representando a inquieta cena britânica, cheia de gente que já ouviu bastante os clássicos, já fez covers deles, mas agora quer criar os seus próprios clássicos, evoluindo e girando a engrenagem. Um disco que é tudo isso e muito mais.

Foto: John Watson

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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