The Now Now mostra lado intimista (e ótimo) do Gorillaz

Gorillaz – The Now Now (2018)

Por Lucas Scaliza

Após a festa do fim do mundo promovida no grande e espetacular (vários sentidos para esta palavra) Humanz (2017), Murdoc Niccals, o baixista ocultista e líder do Gorillaz tem que encarar a cadeia, acusado de contrabando. Ace, um cara de pele esverdeada e cabelos lisos, toma seu posto no baixo. No entanto, os integrantes do grupo parecem se estranhar nesta fase da vida e da carreira. 2-D, o vocalista, lidera a produção do novo disco, compondo a partir de seu ponto de vista solitário, um ponto de vista que coincide com o de seu alter ego de carne e osso, Damon Albarn. Assim, Albarn canta o que o perturba e habilmente consegue também fazer com que as mensagens se encaixem na viagem introspectiva pela mente do vocalista de olhos vazados do Gorillaz.

O resultado é excelente. The Now Now não é um novo The Fall, o álbum do Gorillaz feito em grande parte em um iPad que muitos gostam de desconsiderar como um álbum da banda. The Now Now é um álbum feito por uma banda coesa, que mistura pop, indie, psicodelia, funk e groove, muito mais focado musicalmente do que seus últimos discos. Uma das marcas mais interessantes da banda sempre foi como Damon Albarn atirava para todos os lados e ainda assim não perdia a mão e o fio condutor de cada álbum. O novo disco tem muito sintetizador e muito baixo carregando as músicas (ponto para Ace!), mas é a voz de Albarn, e de 2-D, afinal, que faz tudo se unir. Não é à toa que até a capa é apenas o vocalista com seu violão. Uma solidão que está em cada letra, tal como na imagem da Inglaterra que sempre foi meio à parte da Europa por ser uma ilha e, agora, com o Brexit, parece ainda mais isolada. A metáfora geográfica não é sem motivo também. Muitas músicas fazem referência à geografia, citando lugares [“Idaho”, “Kansas”, “Magic City”, “Lake Zurich”, “Hollywood”], e a melancolia dá as caras de um jeito ou de outro em cada uma das faixas.

Há uma sensibilidade pop que permeia todo o álbum, fazendo com que diversas faixas, por mais descoladas e modernas que pareçam, carreguem algo de melancólico que poderíamos encontrar em canções do Marvin Gaye dos anos 70. “Sorcerez”, uma das melhores do álbum, com certeza se destaca nesse quesito e a angústia de 2-D/Albarn com a apatia das pessoas fica mais aguda quanto mais você mergulha na melodia da canção. Sobre o efeito das drogas, “Magic City” é melancólica e levemente psicodélica. A instrumental “Lake Zurich” tem esse efeito de distensão no tempo também. Nega as tendências mais imediatas e que já viraram moda na mão dos DJs atuais e, com ótimos timbres sintéticos e modernos, soa como uma releitura das pistas de dança funk de 40 anos atrás. “Fire Flies” dá a impressão de que 2-D vaga sozinho pelo espaço, perdido em pensamentos.

Não é do feitio do Gorillaz fazer músicas tristes ou pessimistas. A música do grupo sempre conteve uma mensagem crítica sob a superfície do pop animado ou do hip hop dançante. Dessa vez, com o hip hop enclausurado apenas na ótima “Hollywood”, as canções são uma espécie de composição mais tradicional de Albarn em sua essência, mas que ganharam uma roupagem rica em timbres de baixo sintetizado, teclados e batidas eletrônicas. Tudo habilmente confeccionado em estúdio por Damon e pelos produtores James Ford (o mesmo que produziu o último do Arctic Monkeys e do Depeche Mode) e o colaborador de longa data Remi Kabaka.

Humanz é excelente, uma coleção de música pop esperta e que recebeu colaborações de diversos artistas diferentes, como já é comum para o Gorillaz em sua discografia. Mas após tantas participações especiais na carreira, achei que ficou a impressão de que o Gorillaz em si, a pseudobanda representada pelos 4 personagens, estava se diluindo em seus projetos. Eis que The Now Now é justamente uma tentativa de fazer um disco mais simples e direto que reflita melhor o que seria a banda por si só, com seu vocalista à frente das músicas e com muito menos participações especiais.

Os poucos amigos que dão as caras neste novo capítulo são Snoop Dogg e Jamie Principle (“Hollywood”) e o lendário guitarrista George Benson (“Humility”). Todas as outras são assinadas por Albarn, Ford e Kabaka. Apenas um ou outro músico está creditado em um ou outro instrumento, mas bateria, sintetizador, guitarra, violão e baixo ficaram mesmo a cargo da dupla Albarn e Ford. (Vale notar de Graham Coxon, guitarrista do Blur, toca em “Magic City”). Entraram em estúdio em janeiro deste ano e em fevereiro The Now Now estava pronto.

Gorillaz é uma banda do fim dos anos 90, quando na visão de Damon Albarn (o vocalista do Blur) e do desenhista e animador Jamie Hewlett, a MTV estava entupida de artistas pop sem conteúdo, vivendo de álbuns dispensáveis, singles sem imaginação e uma busca vã pela fama. Parecia que não eram artistas de verdade, pareciam inventados por alguém e um pouco cartunescos. Então porque não fazer uma banda cartunesca de verdade? E assim nasceu Gorillaz, que vendeu mais álbuns que o Blur e conseguiu o que a banda de rock de Albarn não tinha conseguido até então: ser grande nos EUA, justamente o país que mais exportava os tais artistas que pareciam cartunescos na TV da época.

Mas diferente dos artistas que não tinham o que dizer, o Gorillaz, uma banda com quatro integrantes inventados e feitos de papel, tinta e pixels, tinham muito a dizer desde o princípio. Álbuns como Demon Days (2005), The Plastic Beach (2010) e Humanz são tão divertidos quanto sarcásticos. O comentário sobre a condição humana e o estado do mundo atual acompanha o grupo desde sempre. Dessa vez, o distanciamento de 2-D de seus colegas de banda se confunde com o drama de refugiados, imigrantes, a situação política da Inglaterra e da sensação estranha em que o inglês Damon Albarn se vê, incomodamente assistindo seu país dar passos errados.

Para mim, The Now Now é uma experiência que deu certo. A voz do Gorillaz foi recuperada e a sagacidade lírica permanece intacta, mesmo sendo um álbum com escopo menor. Caso a efusão de estilos musicais presente em outros álbuns da banda seja uma barreira para você, dê uma chance a TNN. Envolvente e com uma unidade sonora jamais praticada pela banda, é uma experiência em que a melancolia é a cereja em cima do bolo.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Comentários

    Ejaculador

    (1 de julho de 2018 - 15:48)

    Nossa, o disco do ano passado eu achei uma bosta. Nem o feat com a Grace Jones salvou. Tanto que, acho que eles se adiantaram e lançaram esse no ano seguinte (sem descansar) pq o resultado foi bemmmm fraco, apesar da crítica sempre babar eles (seja bom, seja ruim … só elogiam).
    Esse ficou muito bom! O atual.

      Lucas Scaliza

      (17 de julho de 2018 - 10:13)

      Fala, Ejaculador. Tava sumido, hein? Olha, eu gostei do anterior, principalmente pelo conceito. Mas é mesmo um disco frenético e que vai para todo lado. Já o The Now Now acho precioso. E eu mesmo queria mais ouvir Gorillaz “puro” e menos na voz de outros artistas e rappers. Já é o meu álbum preferido da banda, depois do Demon Days.

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