Lykke Li mostra uma relação morrendo em “so sad so sexy”

Lykke Li – so sad so sexy [2018]

Por Lucas Scaliza

Após completar sua trilogia sobre a melancolia e as agruras de ser uma mulher de 20 e tantos anos em 2014 com I Never Learn, Lykke Li agora segue em frente com sua carreira solo com so sad so sexy, trazendo  composições que abraçam a produção eletrônica, pop alternativo e R&B que não deixa de contemplar suas raízes no indie.

Superada a fase dos 20, seu novo disco chega com a cantora já encarando os 32 anos e novos desafios, como luto e maternidade. Embora não se desvencilhe de características que vem desenvolvendo desde o primeiro álbum, a guinada para o R&B e o hip hop em várias faixas mostra que a sueca está de olho no que o mercado pop também está de olho. O interessante é como ela trafega de um para o outro, seja incluindo um rap na balada “hard rain” ou seja indo de vez para o R&B em “deep end” ou “sex money feelings die” e até trap em uma parte de “two nights”. Mas ela não pretende rivalizar com SZA ou Cardi B ou Nicki Minaj. Ela faz o tipo de R&B que se espera de Lykke Li. Dá para dançar, dá para sensualizar, mas não há excesso de produção. Mas é fácil sentir aquela ponta de tristeza no que canta e nas escolhas harmônicas.

“deep end”, aliás, parece uma faixa do Drake até certo ponto. No refrão, sua voz impõe sua personalidade e os versos “Swimming pool, swimming pool” contêm uma escolha fonética e rítmica tão sagaz que emulam um rebolado. Não há histórias muito felizes no álbum. Em “two nights” ela conta como ficou fumando por duas noites enquanto esperava seu parceiro retornar enquanto ele estava por aí dançando com outras garotas – e então o rapper americano Aminé, de Portland, comparece para dizer que sua parceira, Lykke, já não dança para ele e nem mesmo demonstrava amar.

“last piece”, sobre uma mulher que se doa para estar numa relação e vai perdendo os traços de sua individualidade, é outra história triste e que poderia virar hit do álbum. “jaguars in the air” mistura trap com dream pop com muita habilidade, mantendo a produção com o pé no chão.

Diferente de Lana Del Rey, que também tem seu belo quinhão de relacionamentos de merda e abusos para emoldurar nas letras, Lykke Li não glamouriza os problemas do amor em seu disco. Ela mantém uma postura mais sóbria em relação a eles. Se em “sex money feelings die” ela fala de um círculo vicioso em que esteve presa – e admite que isso acabou com sua perspectiva da relação –, na faixa título ela diz que chorou um rio e que essa cena foi triste, mas sensual de certo modo. Em “better alone” ela reflete que embora ainda transem ou que ainda durmam juntinhos, as coisas estão irremediavelmente condenadas. Em “bad woman” ela canta: “Sou uma mulher ruim, mas ainda sou sua mulher” e “não se vá antes que eu mostre o que está por trás de toda a minha tristeza, o que há dentro de todas as balas que atiro”, marcando um momento em que ela se abre para admitir culpa, mas também demonstrar que há motivos para tudo o que sente.

E a jornada termina com “utopia”, indicando que o relacionamento perfeito sonhado por duas pessoas não existe. Já o clipe para “utopia”,  liberado no Dia das Mães, é uma homenagem à mãe de Lykke Li e a todas as mães. Ela própria perdeu a mãe meses após se tornar uma mãe.

so sad so sexy tem uma sonoridade diferente dos três primeiros álbuns, com uma produção mais eletrônica e menos proeminência de violões e guitarras, por exemplo. As quatro últimas canções, no entanto, que retratam os momentos anteriores ao luto da relação, perdem os traços de R&B e trap e se focam no indie pop melancólico. Apesar de não ser efusivo, acredito que está longe de ser um disco chato – ele só precisa da atmosfera certa para funcionar. Os temas soam mesmo um pouco repetitivos, mas a exploração de sua própria consciência fornecem alguns elementos que fazem as letras valerem a pena.

Não é o disco que vai transformar Lykke Li em sensação mainstream e nem em headliner de festivais de verão europeus, mas o disco que vai continuar cativando seu público e crescendo junto com ele. Se os problemas da mulher de 20 e tantos pareciam complicados, espere só até conhecer os dilemas da mulher/mãe de 30.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.