Em “Gravity”, o Bullet For My Valentine parece maduro, mas é só ilusão

Bullet For My Valentine – Gravity (2018)

Por Gabriel Sacramento

Uma das bandas de metal mais alvejadas pelos haters, assim como o Asking Alexandria, o Bullet For My Valentine surgiu em 1998, mas só conseguiu alcançar um vôo alto em 2005, com The Poison, que é um bom álbum, assim como as continuações, Scream Aim Fire (2008) e Fever (2010). Aliás, lembro muito de ouvir “Hand of Blood”, do primeiro álbum, enquanto me divertia jogando Need For Speed: Most Wanted, jogo do mesmo ano do álbum. Foram muitas corridas ao som dos guturais do Matthew Tuck e dos riffs em pedal point.

Os galeses surfaram na onda do metalcore que vinha crescente com bandas lançando bons álbuns, como Ascendancy (2005) do Trivium e The End of Heartache (2004) do Killswitch Engage – este último que, aliás, não envelheceu um segundo. O gênero trazia uma proposta interessante: subvertia a lógica comum no grunge de canções que começam mais tranquilas nos versos e explodiam no refrão. No metalcore, estilo que nasceu da fusão entre o hardcore punk e thrash metal, os versos eram os momentos mais intensos, nos quais os vocalistas exibiam seus guturais profundos, e o refrão, o momento para cantar melodias grudentas. O BFMV aproveitava essa lógica, mas implementava de uma forma um tanto diferente, sem seguir estritamente as regras, diminuindo a influência do hardcore no som, incorporando um pouco do emo e com um diferencial interessante: uma destreza técnica que ficava evidente nas divisões de guitarras, solos, riffs bem elaborados e linhas de bateria mais complexas.

Mas o tempo passou, mudanças de line-up vieram e sobrou Matthew Tuck (guitarra e vocal), Michael Padget (guitarra e backing-vocals), Jason Bowld (bateria) e Jamie Mathias (baixo). Com o tempo, as características que chamavam a atenção foram sendo liquidificadas em uma proposta sonora comercial e sem punch. Gravity é o sexto álbum dos caras e é uma continuação natural do que vinham fazendo nos dois últimos álbuns, depois do Fever.

A produção do novo disco é do Carl Brown, que também produziu o Venom (2015), e ele atendeu bem ao desejo da banda de fazer algo mais simples em termos de instrumental para que os refrãos brilhassem mais. O problema é que esses refrãos são fraquíssimos e, por mais que tente sair, a banda ainda segue confinada nas paredes da fórmula de metal misturado com pop que o Skillet também usou em seu disco – uma fórmula sonora que está mais surrada que Judas em Sábado de Páscoa. Não se enganem: o som deles parece um cão raivoso do Stephen King com guitarras gigantes e vocais imponentes, mas se você encarar por tempo suficiente, percebe que se trata de um cão da Disney, fofo e adorável. Breakdowns e riffs pesadões de guitarra parecem soar tão impactantes quanto uma surra de algodão e nunca soam o suficiente, pois não são o foco. É tudo pensado para ser fácil, fácil demais, o que sacrifica as ideias e o potencial do álbum.

O som do álbum e a mixagem deixam tudo super polido, mas sem gerar nenhum efeito que leve o ouvinte a se apegar ao álbum. É como se o som dos caras fosse processado por um filtro que deixa tudo mais fofo e palatável uniformemente. A banda, que já tem 20 anos de existência, soa como um grupo adolescente, apostando todas as fichas em recursos frágeis e sem segurança com sua proposta.

O disco do BFMV só confirma mais uma vez que praticamente nenhuma banda daquela onda de metalcore sobreviveu bem ao teste do tempo: algumas foram se tornando mais inofensivas com o tempo até perderem totalmente a pegada de outrora; outras simplesmente acabaram; algumas mudaram do metalcore para outros subgêneros; e outras investiram na autorreferência até a fonte secar (e quando secou, continuaram sem fonte mesmo). Pode-se dizer que o BFMV mudou, mas para pior. A inspiração e o aspecto divertido de antes foram tragicamente substituídos por uma seriedade que na prática representa a ilusão do amadurecimento. Às vezes, amadurecer não quer dizer deixar o que se fazia quando jovem, mas aperfeiçoar aquilo, dando contornos mais sólidos. É isso que faltou ao BFMV. 

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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