“Please Don’t Be Dead” é o Fantastic Negrito revolucionando o blues

Fantastic Negrito – Please Don’t Be Dead (2018)

Por Gabriel Sacramento

Que discaço!

Xavier Amin Dphrepaulezz, o Fantastic Negrito, quase desistiu da música várias vezes devido a uma vida difícil, que parecia jogar contra ele e contra seu sonho. Teve que aprender a como lidar com a fama, com os vícios e com as portas que se abrem quando se tenta viver como uma estrela, para então, focado na qualidade de seu trabalho, conseguir chegar a uma notoriedade interessante com Last Days of Oakland (2016). Encarou os olhos da morte várias vezes, dentre elas, em um acidente que resultou em um trágico coma em 1999 – capa do novo disco -, mas, como consta no seu site oficial, está bem e desfrutando da sua terceira vida. Se desistisse da carreira artística, a música moderna perderia um dos nomes mais sensacionais dos nossos tempos.

A infância foi marcado por um choque de cultura quando chegou em Oakland. O choque foi entre a visão religiosa do seu pai, um imigrante africano muçulmano, e a visão das ruas americanas. Foi aí que sua educação musical foi “infectada” pelo funk. Cresceu, aprendeu a tocar tudo sozinho (espiando aulas de música na universidade sem estar matriculado – o que me lembra a forma como eu aprendi a tocar violão), deu a volta por cima, ganhou grammy e fez uma turnê bem legal com o Chris Cornell e o Temple of The Dog.

Foto: Robbie Walsh

Seu som? Uma mistura de Gary Clark Jr., Lenny Kravitz, com muito, mas muito de uma personalidade complexa, fruto de misturas musicais certamente inusitadas. Na sua playlist pessoal, além de nomes como James Brown, David Bowie, Kendrick Lamar e Taj Mahal, encontramos também Tribalistas, Vanessa da Mata e Rael. Produz seus próprios trabalhos e possui uma autonomia absurda sobre o que sai com seu nome. Please Don’t Be Dead é o título do novo disco e é uma reflexão sobre a situação dos Estados Unidos, muito aquém do tal do “sonho americano” que foi prometido. Negrito quer vociferar contra isso e usa sua música de raiz, cortante, rasgada e vibrante para dizer que a América pode – e deve – abraçar uma mudança a partir da conscientização da sua condição.

Please Don’t Be Dead é uma sopa de blues, rock, funk, r&b, feita de uma forma que você não ouve por aí todo dia (de novo: que discaço!). Afinal, como disseram para o artista, a música dele é “muito blues para o rock, muito rock para o blues, muito soul para o country e muito funk para o country”. “Plastic Hamburgers” abre o trabalho com uma guitarra muito bem timbrada, uma veia roqueira emergente e vocais que lembram muito os maneirismos do Robert Plant e do Mike Kerr do Royal Blood. O resto do tracklist é uma série de petardos de levar queixos ao subsolo: a funkeada “Bad Guy Necessity”, que acena para o Bernard Allison; a tensa “A Boy Named Andrew”; a funkeadíssima “Bullshit Anthem”, só que no estilo Bruno Mars; e a mezzo blues mezzo soul “The Duffler”. Enfim, ouça tudinho e, no mínimo, umas duas vezes.  

Como produtor, Negrito dá um show ao abordar essa variedade de estilos de uma forma tão original, desvirtuando algumas convenções como o aspecto guitarreiro do blues, por exemplo. Aqui, o músico faz os vocais assumirem a posição que a guitarra sozinha assumiria em qualquer outro álbum de blues rock, guiando os riffs – “The Suits That Won’t Come Off” deixa isso claro. Ele trabalha suas canções para alternar climas diferentes sem perder coesão, com uma tensão e dramaticidade moderadas, nunca caindo para o melodrama. E mesmo que o álbum seja variado em termos de estilo, tudo é muito tradicionalista e muito respeitoso com relação ao que é consagrado e considerado como clássico e raiz na música americana. (como se a aura do blues – ou o espírito assombrado do Robert Johnson, se você preferir -, estivesse perseguindo cada arranjo e cada nuance.)

Se como produtor, ele é muito bom, como cantor, Negrito consegue se superar. Suas performances são tão diversificadas e complexas que em muitos momentos temos a clara impressão de estar ouvindo outra pessoa cantando, porque ele – propositadamente ou não – interpreta diferentes personagens ao longo do álbum. O cara tem um vibrato poderosíssimo, um drive de dar inveja, energia e adrenalina de sobra, mas também consegue uma fragilidade soulful com sua voz, sensualidade e secura. Já as harmonias vocais são muito bem elaboradas e complementam perfeitamente o vocal principal.

A mixagem de Please Don’t Be Dead consegue ser: tridimensional, o que facilita com que percebamos os vários instrumentos; perfeitamente seca, reforçando o groove; mas também fortemente dinâmica e experimental com um tratamento soberbo de timbres, texturas e efeitos. Cada faixa ganha seu sabor único, cada nuance é encarada de uma forma diferente. Além disso, em vários momentos, Negrito consegue pensar bem como um editor juntando peças para funcionar logicamente. A maior prova disso é “Transgender Biscuits”, que aloca bem uns elementos eletrônicos e possui uma mix/edição extremamente complexa que varia de estilo por seção.   

Please Don’t Be Dead aborda o blues de uma maneira que nenhum disco antes dele em 2018 fez, e eu duvido muito que algum depois dele consiga fazer. Aliás, vou além: é um dos destaques do gênero na década. Um registro feito com muito esmero, paixão e talento de um guerreiro que apanhou muito, da vida e de si mesmo, mas usou a música como muleta e hoje se dá ao luxo de andar com as próprias pernas.

Que discaço!

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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