Roger Daltrey mostra como interpretar canções em novo disco solo

Roger Daltrey – As Long As I Have You (2018)

Por Gabriel Sacramento

Ultimamente tenho percebido que vários cantores têm mostrado como envelhecer bem na música, buscando novas formas de expressão para gerar ainda mais interesse em suas personas. Tem sido assim com o Bruce Springsteen, que tem feito shows épicos de quase quatro horas, cheios de vigor e energia, além de discos bem interessantes; Roger Waters é outro bom exemplo, já que demonstrou muita vitalidade e criatividade no seu Is This The Life We Really Want? (2017); Rod Stewart me empolgou com sua voz rouca em Another Country (2015); outro bom exemplo é o Steven Tyler, que enveredou bem pelo country em We’re All Somebody From Somewhere (2016); temos também o David Gilmour, Robert Plant, Elton John, e a lista segue com incontáveis nomes.

O mais novo integrante dessa lista é o Roger Daltrey, com seu mais novo As Long As I Have You. Indo de graves elegantes à roucos animados, Daltrey demonstra poder e vigor em seu novo álbum, produzido pelo Dave Eringa, com quem já trabalhou na carreira solo e no The Who. É o primeiro álbum solo do londrino em 26 anos e é um compilado de covers misturados com canções originais.

É incrível que, aos 74 anos, Daltrey esteja cantando tão bem. E Eringa quis chamar a atenção justamente para isso, mantendo o foco totalmente no Daltrey durante os 37 minutos, mesmo com o disco passeando por momentos mais roqueiros e momentos de mais candura, como na pianística “Into My Arms” – cover do Nick Cave. Os arranjos são bem retos, com introduções curtas, poucas passagens instrumentais, não possuem momentos intrincados e super complexos, nem nenhuma construção meticulosa de clima, mas funcionam satisfatoriamente como uma boa e precisa base para que o personagem principal brilhe sem se esforçar muito. Aliás, essa lógica de produção teria dado muito errado caso não tivéssemos um cantor realmente hábil.

“You Haven’t Done Nothing” – gravada originalmente pelo grande Stevie Wonder – possui um riff carregado pela guitarra e segue sem variar muito até o final, com uma clara preocupação em ser o mais estático possível. Canções cheias de tempero soul como “Out of Sight, Out of Mind” e “The Love You Save” destacam a interpretação belíssima do britânico, que vai do contrito ao solene, com uma classe digna de alguém que já foi o frontman de uma das maiores bandas de rock do planeta. A faixa-título, cover do Garnet Mimms, abre o álbum com tudo, com uma performance cheia de potência do Roger e uma base que beira ao dançante.

Mesmo com uma idade bem avançada, o cantor assume a responsabilidade e conduz o disco com força necessária, ditando cada direcionamento. Diferente do também britânico Glenn Hughes, que em seu disco mais recente estava mais contido mesmo com a voz ainda muito boa, Daltrey canta tudo que pode, explorando sua voz como quem explora um mapa e entregando performances marcantes e conquistadoras. Mesmo depois de tantos anos, a voz do cantor não demonstra sinais de cansaço e definitivamente não está pedindo para ser aposentada.

Talvez o único ponto negativo a ser destacado é o fato das partes instrumentais terem sido pouco desenvolvidas. Mas logo percebemos que não é falta de inspiração: várias ideias interessantes surgem ao longo do álbum, mas foram pouco aproveitadas propositadamente para fortalecer a coesão e manter a proposta. Nesse sentido, faltou um pouco mais de espontaneidade do produtor e do Roger para ousar um pouco mais e tentar pegar o ouvinte desprevenido.

Cantar não é só utilizar bem uma série de técnicas vocais; há muito mais que isso. É saber interpretar bem, saber transpor o conceito das letras para o musical, utilizando como ferramentas as técnicas adequadas. Geralmente, cantores iniciantes se preocupam demais em aprender técnicas e focam pouco em aprender a interpretar canções, resultando em performances no estilo “festivais de calouros”: com desfile de técnicas sem o menor feeling para saber o que se deve usar e o que não.

As Long As I Have You ressalta o poder de se ter um bom intérprete: alguém que pega o material escrito e engrandece, torna multidimensional, intrigante e agradável aos ouvidos, que conta histórias com as letras, mas também com a forma como se expressa. E ele não parece cantar, mas, sim, conversar com seus ouvintes, utilizando melodias para isso. Enquanto alguns outros cantores tentam caminhos diferentes para se forçar a sair da zona de conforto e, com isso, manter um padrão de qualidade elevado, Daltrey confia no rock que sabe fazer, no background de soul que possui e no seu instrumento natural para causar impacto. Mais um grande artista com anos de experiência dando aula de como fazer música para as gerações mais novas.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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