38 anos depois, o Parliament surge com um disco moderno e reflexivo

Parliament – Medicaid Fraud Dogg (2018)

Por Gabriel Sacramento

George Clinton é um daqueles gênios da música que, felizmente, ainda estão vivos. Seu trabalho com suas bandas irmãs, Parliament e o Funkadelic, foi fundamental para o desenvolvimento da música americana das últimas décadas. Junto com Sly Stone e James Brown, Clinton é membro da trindade máxima do funk, mas suas bandas também influenciaram o hip-hop fortemente, o disco, pós-punk, o pop, as novas ondas do soul, entre outras tendências. E, claro, não podemos esquecer: o cara também foi pioneiro do afrofuturismo, que hoje está muito em voga graças ao filme do Pantera Negra e artistas como a Janelle Monáe – aliás, falamos sobre isso no episódio de música sci-fi. Com suas temáticas fantásticas, seu brilhantismo musical e ousadia, além do tino para inovação, George escreveu seu nome para sempre na história, prestando um tremendo serviço à humanidade.

Depois de discos absolutamente fenomenais como Maggot Brain (1971), One Nation Under a Groove (1978) e Mothership Connection (1975), Clinton deu uma pausa com suas bandas nos anos 80. O Funkadelic voltou em 2014, com 33 músicas para compensar o tempo que esteve fora, já o Parliament surge esse ano com Medicaid Fraud Dogg, que possui 23 músicas, e é o primeiro lançamento de inéditas desde o bom Trombipulation (1980). Para quem não lembra como funcionam as bandas, é o seguinte: Clinton é o principal membro em comum, o resto dos músicos vão rotacionando. Naturalmente, eles se misturam e ganham o nome de P-Funk em turnês, mas a ideia no início era fazer duas bandas distintas.

Todos sabemos que o Parliament sempre seguiu uma onda mais cool do que o Funkadelic, que era marcado por uma mistura bem interessante com o rock psicodélico mais visceral. E Medicaid marca isso, retomando aquele som gostoso lounge, que nos acostumamos a ouvir da banda. Só que esse novo álbum é muito mais que isso. Lembra de Snoop Dogg Presents Bible of Love que resenhei recentemente? Pois é, Medicaid segue basicamente a mesma lógica de louvar a diversidade da música negra americana e suas tendências, buscando o forte de cada uma, servindo como um grande guia da evolução desde quando o Parliament surgiu até hoje.

Clinton ganha menos protagonismo aqui, ao passo que a enorme equipe da banda rouba a cena. Musicalmente, temos muitos grooves que relembram os bons momentos da banda nos anos 70, claro, sem um Bootsy Collins (saudades!), e com um quê de moderno que deixa na cara que trata-se de um grupo revisitando o que foi feito anos atrás. Aliás, aqui já vem o primeiro demérito do álbum: soa bastante como uma ode ao Parliament, mas em pouquíssimos momentos soa mesmo como algo do Parliament. Em alguns momentos, mesmo que tenhamos bons grooves, bem compostos, a execução parece carecer de algo a mais, de um swing decisivo.

Mas como a proposta é diversificar, naturalmente temos muito de hip-hop como nunca ouvimos na discografia dos caras, além de timbres eletrônicos, sintetizadores, bateria eletrônica e tudo mais. Essas referências de hip-hop são bem colocadas, deixando o ouvinte certo de estar ouvindo algo interessante e não simplesmente algo genérico. A equipe do álbum parece mais confortável e natural trazendo elementos modernos do que elementos antigos.

Só para destacar algumas faixas: “DaDa” tem metais bem articulados, um groove que combina vocais e baixo de forma bem marcante e um desenvolvimento que valoriza as partes mais fortes da música, interseccionando o groove principal com ideias de instrumentação mais livres. “Type Two” também combina metais e groove sincronizado entre vocais (belíssimas harmonias!) e baixo. Dá para perceber que soa bastante igual a bandas novas como  Dumpstaphunk, que, a propósito, não existiria sem o Parliament. “Riddle Me This” parece coisa do Snoop Dogg, na verdade, um encontro entre o Dogg e o Parliament mesmo. “I’m Gon Make U Sick O’ Me” é a música mais Parliament de todas, com a voz do Clinton forte, rouca e imponente, dotada de um feeling que serve demais à música.

O novo álbum do Parliament certamente irá deixar alguns ouvintes antigos infelizes, principalmente por toda a modernização do som, mas não é um álbum ruim. Pode até convidar alguns novos ouvintes a conhecer o trabalho excelente da banda, com uma linguagem mais compreensível e adequada ao nosso contexto. Seu tamanho prejudica um pouco a fluidez e torna a audição um pouco pesada, algo que poderia facilmente ter sido resolvido caso Clinton decidisse lançar em duas partes, por exemplo. É menos coeso que Bible of Love, mesmo que tenha menos nomes envolvidos. Também não é um disco de grandes singles, exceto “I’m Gon Make U Sick O’ Me”, o que reforça que foi pensado para funcionar como um organismo inteiro.

Várias letras falam de medicações, focando no fator viciante deles. E, claro, Clinton e sua equipe não perdem a chance de cutucar a geração moderna, criticando o uso excessivo de redes sociais em “Antisocial Media”. As redes sociais hoje em dia acabam gerando o efeito contrário do objetivo para o qual foram pensadas: isolam as pessoas, ao invés de aproximar. Assim como os remédios, as tecnologias são extremamente úteis, mas nocivas se a dose for maior que o recomendado. E isso reitera o fato do Clinton estar querendo falar com os jovens nesse disco novo, não só com a música, mas também com as letras. Voltar depois de tantos anos com uma musicalidade relevante é muito bom, mas ter algo a dizer é melhor ainda. Mais um gol bonito do George Clinton.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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