Kanye West fala de seu estado mental em disco curto e terapêutico

Kanye West – Ye [2018]

Por Lucas Scaliza

A boa notícia sobre Ye é que o álbum dura apenas 23 minutos e não tem nenhuma letra exaltando Donald Trump ou relativizando a escravidão, só para citar dois pivôs de declarações recentes de Kanye West que fizeram parecer que o panorama mental do rapper parecia mais prejudicado do que anos atrás, quando parecia levar a sério a comparação entre si mesmo e Jesus Cristo.

[Contudo, o próprio Kanye explicou que Ye é um diminutivo de seu próprio nome, ainda menor do que o famoso Yezzy, e é também uma das expressões mais usadas na Bíblia, significando “tu”. Pelo visto, a diferença entre ter uma crença espiritual e achar que faz parte da narrativa divina continua um tanto bagunçada na cabeça de West.]

Ye é, na verdade, um EP, mas como as plataformas de streaming desfavorecem os álbuns em seus sistemas online, é mais fácil e produtivo considera-los álbuns mesmo. O mesmo ocorreu com o vindouro Bad Witch, que deveria ser o EP que fechará uma trilogia do Nine Inch Nails, mas será um álbum para alcançar mais facilmente os fãs. Assim, os serviços de streaming começam a matar um formato que ganhou trabalhos muitas vezes superiores a álbuns completos nos últimos anos.

O que Ye tem de melhor é a habilidade de West de pegar samples insuspeitos e compor música nova com eles. Ele é basicamente isso e, embora a habilidade do rapper e sua equipe sejam louváveis, o resultado não chega a ser incrível em nenhuma das faixas. Se “Yikes” é instigante, “All Mine” é arrastada, e “I Thought About Killing You” é a tentativa de se representar como o bipolar que está na capa do álbum, um diálogo dele com ele mesmo. “No Mistakes” tem o flow característicos de Kanye [que, aliás, é o mesmo das outras faixas] que se resolve em um refrão sampleado de muito bom gosto, fazendo dessa uma das melhores faixas. Felizmente, “Ghost Town”, na sequência, mantém o bom clima e faz dessa dobradinha o momento mais memorável de Ye. “Violent Crimes” fecha bem o trabalho e traz Kanye fazendo o melhor que pode em cima de uma base com uma excelente harmonia em ritmo R&B. Embora West esteja creditado como letrista e produtor em todas as faixas, sempre em parceria com outros colaboradores, “Violent Crimes” é a única atribuída apenas a ele em letra e produção.

Ele continua falando sobre si mesmo, mas dessa vez, diferente de boa parte de The Life Of Pablo [2016], sem muitas fofocas [talvez “All Mine”, sobre infidelidade, seja exceção]. Também não tem a tenacidade lírica de My Beautiful Dark Twisted Fantasy [2010]. Porém, faz rap sobre sua própria mentalidade bagunçada e o que viveu no último ano, desde que foi tirado de um show para dar entrada na ala psiquiátrica do hospital da UCLA, na capital da Califórnia. Pensamentos suicidas e porque não se matar, intoxicação por drogas e medicamentos,  Ye pode ser um confessionário, um espaço público para que ele possa desabafar, colocar a si próprio em perspectiva mais uma vez. O pequeno álbum vira, quem sabe, um tipo de trabalho terapêutico que o ajuda a colocar a cabeça no lugar de novo. Contudo, certas certezas sobre si mesmo ainda permanecem. Vai ser preciso muito psicanálise antes que Kanye possa se enxergar como o ser humano que é, e não só como o astro larger than life que ele crê ser parte indispensável e indivisível de seu ego.

Após dizer que a escravidão era uma escolha ao TMZ, comentário que gerou críticas a sua pessoa e análise do quão saudável andava sua mente, senso crítico e conhecimento de História, Kanye diz ter refeito Ye tematicamente por completo. É apenas o segundo trabalho de uma série que, ao todo, serão cinco álbuns. Há muito espaço para redenção ainda, assim como pode por tudo a perder, inclusive sua sanidade.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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