Snow Patrol volta com um disco diferente, mas nem tanto assim

Snow Patrol – Wildness (2018)

Por Eder Albergoni

A memória às vezes não é confiável. Os sete anos que separam Wildness do último álbum do Snow Patrol, Fallen Empires (2011), podem contar uma história um tanto quanto distorcida. Observar uma ligeira continuidade nos trabalhos da banda escocesa é a primeira surpresa, pois por mais diferente que seja “Life On Earth”, o Snow Patrol ainda se norteia pela fórmula que tornou “Open Your Eyes” aquele sucesso gigantesco e arrebatador. Isso é perfeitamente normal. O que não cai bem é a repetição.

Não que Wildness tenha sido criado sob uma forma e produzido nos detalhes mais familiares. Existe ainda aquela aura pós-britpop, que pretendia ser maior e mais relevante quando bandas como Doves, Keane, Stereophonics e até mesmo o Coldplay surgiram prometendo novidades que deixariam o Radiohead comendo poeira. O Snow Patrol alcançou o mainstream, mas como um time que investiu mais do que podia pagar, veio a pausa e agora é como se um bom time tivesse que escalar as divisões inferiores da liga da música.

Sobre o tema do álbum, o vocalista Gary Lightbody disse: “Há muitos tipos de selvageria, mas acho que ela pode ser resumida em dois: a selvageria da era moderna, em que tudo é confusão, ilógico e alienação e uma selvageria mais antiga. O segundo tipo é algo primitivo, vivo e bonito que fala com nossa verdadeira conectividade, nossa paixão, nosso amor, nossa comunhão com a natureza e uns com os outros. É nesse tipo de selvageria que o álbum está centrado. A perda dela. Tentando se reconectar para se lembrar disso.”

Não, o álbum não parece assim tão selvagem, mesmo nesses termos. O peso da própria carreira amassa conclusões que deveriam desconsiderar a banda como referência e comparação. Ainda assim, existe um espaço quase infinito que o Snow Patrol pode ocupar, e as aspirações cósmicas de Wildness funcionam quando olhadas de fora pra dentro, como boas e velhas metáforas que são ditas claramente e sem rodeios.

O disco em si se assemelha aos últimos lançamentos de Simple Minds e The Waterboys. Trazem uma energia própria que não precisa de mais nada orbitando próximo ao seu eixo. Isso significa que mora nessa tendência uma tentativa de ser singular no meio de todo o caos e, principalmente, conseguir algum destaque nos algoritmos dos serviços de streaming.

A já citada “Life On Earth”, junto a “Heal Me” e Soon”, sobre a demência do pai de Lightbody, formam os pilares centrais que sustentam uma audição agradável de todo o contexto utilizado pelo Snow Patrol nessa volta. “Don’t Give In” pode soar um pouco como se Bruce Springsteen tivesse nascido em Glasgow. “Empress” é a típica canção do Snow Patrol. “A Dark Switch” tem um swing digno de Justin Timberlake e deságua em um arranjo delicadamente orquestrado.”What If This is All the Love You Ever Get?” é a baladinha pra entrar em alguma série de televisão.

“A Youth Written In Fire” acaba passando despercebida apesar do bom refrão. “Wild Horses” entrega uma energia poderosa o suficiente pra levantar o público em festivais europeus. E “Life and Death” encerra o álbum contemporizando os sete anos em hiato. Wildness não chega perto de Eyes Open (2006), mas sabe ser ousado ao estilo Snow Patrol, disfarçando as repetições e a fórmula, criando um disco diferente, mas nem tanto assim.

Todas as músicas possuem clipes no YouTube.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

Comentários

    lima

    (29 de maio de 2018 - 09:57)

    nao aguento mais o brasil rom rom .. nao aguenta-se o brasil rom rom rom. o pobre fica amargando uh uh uh e o jornalismo achincalhando uh uh uh uh uh

    Lola

    (26 de outubro de 2018 - 15:11)

    Concordo que continuam iguais mais diferentes. O próprio vocalista é um exemplo claro disso: sua voz se mantém intocável diante desses 7 anos decorridos, porém sua aparência sucumbiu ao vício que até o momento permanece vencido. Como fã incondicional da banda, não posso deixar de admirar o novo álbum porém com ressalvas de algumas músicas que sinceramente me pareceram uma batida pop bem ao estilo da colega Taylor Swift. No Rock in Rio de 2011, apesar de extremamente vaiados pela plateia que só os conhecia por um hit e pedia ensandecidamente pela banda Red Hot, Gary em seus piores momentos se mostrou totalmente afável, simpático e feliz com um público de adolescentes bobos que não sabem apreciar uma boa música.

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