Os robôs da Artificial Pleasure nos obrigam a dançar com seus grooves

Artificial Pleasure – The Bitter End (2018)

Por Gabriel Sacramento

Formada em 2016, a banda britânica Artificial Pleasure aposta em um som mais anos 80, que lembra muito atos como Talking Heads, Depeche Mode e David Bowie – principalmente na fase Let’s Dance – com um pouco da modernidade do LCD Soundsystem. É como um resgate da new wave, com um forte quê futurista. The Bitter End é o primeiríssimo álbum de estúdio desse quarteto formado por Phil McDonnell (voz e guitarra), Don Brennan (sintetizadores, produção e mixagem), Lee Jordan (bateria) e Rich Zbaraski (baixo).

O fim amargo dos caras tem o gosto amargo da música dançante e robótica que se fazia depois da queda do punk. A produção, que costuma ser feita pelo Don Brennan mesmo, formata os arranjos para privilegiar linhas de baixo matadoras e grooves certeiros que se repetem e se repetem, como é típico em outro estilo que forma a matiz do som deles: o funk. Os caras demonstram perfeitamente a empolgação, a paixão e os delírios da juventude de décadas atrás, e eles são capazes de nos colocar num DeLorean e nos transportar no tempo para lá.

Nas fotos de divulgação do grupo, parece que estamos mesmo vendo um monte de robôs, e o som parece ter sido feito por uma inteligência artificial – alguma que parece ter saído de algum romance do sensacional Phillip K. Dick – que, depois de submetida a alguma base de dados cheia de funk e disco, desenvolveu a perfeita fórmula para sonoridades sacolejantes e sincopadas na medida certa. “I Need Something More” compila um baixo sempre muito sóbrio e musculoso com guitarras ruidosas e ocasionais riffs de sintetizador. O timbre e o reverb na voz em “Bolt From the Blue” parecem coisa de outro mundo, enquanto a linha melódica que o vocalista executa lembra algo mais funky mesmo, como algo que o Living Colour faria. “Turn To Dust” é de uma excelência ímpar em termos de arranjo: um piano belíssimo impõe uma linha melódica que segue por toda a música, inclusive sendo executada pelo vocal, enquanto o baixo continua com grooves em stacatto. Phil interpreta com mais expressão, mais contrição, o que demonstra que é um vocalista muito versátil.

Fãs de “Let’s Dance”, a faixa, do Bowie, vão abrir um grande sorriso quando “Young and Carefree” chegar ao meio. A faixa tem uma longa intro instrumental que chama a atenção para o quanto a criatividade em termos de variabilidade e rotação de ideias com os quatro instrumentos parece não dar sinais de cansaço mesmo com o avançar do tracklist. E, assim como em “Turn To Dust”, no resto do álbum, a produção alterna bem entre o mais emocional e o mais groovy, mas também entre passagens mais roqueiras, com a guitarra assumindo a frente de ataque, estabelecendo um belíssimo diálogo entre os gêneros.

Existem álbuns que eu sempre digo: devem ser ouvidos com um equipamento de qualidade, o ambiente mais hi-fi possível. The Bitter End é, sem dúvidas, um desses. O trabalho de engenharia e mixagem foi feito com total maestria, com timbres e texturas apaixonantes na mesma medida em que são impactantes, climas concretos, instrumentos vívidos no plano, inventividade nas escolhas, e com tudo isso cooperando para nos convencer acerca do conceito. É um som extremamente frio e ao mesmo com muito swing, com bases perfeitamente editadas com relação ao tempo, compasso, mas que nunca perdem o feel.

Muitos vão argumentar que falta identidade própria ao grupo, e de certa forma eu concordo, mas não sinto que isso diminuiu nem um por cento da força de The Bitter End, que funciona como uma celebração da new wave bem maior do que a própria banda. Imagine os robôs da espécie do HAL 9000 de 2001: Uma Odisséia no Espaço dominando a humanidade, só que com um novo modus operandi: ao invés de torturar os homens ou matá-los, os obrigam a dançar sob seus grooves hipnóticos. Louco, né? The Bitter End soa como uma versão musical dessa história.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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