Chvrches vai em busca do top 10 com “Love Is Dead”

Chvrches – Love Is Dead (2018)

Por Lucas Scaliza

Não é exatamente estranho que apenas a faixa “ii”, um interlúdio na verdade, seja a coisa mais diferente de Love Is Dead, terceiro álbum dos escoceses do Chvrches, o trio que resgatou de forma digna e inesperada o synth pop no primeiro álbum e foi com tudo para o power pop no segundo, Every Open Eye, três anos atrás. O grupo continua a apostar em uma sonoridade do presente, sem cair em modismos vintage ou tentar emular timbres de décadas passadas. Na verdade, apenas “Wonderland” tem um quê de New Order clássico no baixo, mas não chega a ser uma influência sentida no disco todo.

Aliás, Love Is Dead é muito imediato, como se quisesse não apenas abraçar o público, mas segurá-lo, com força. Com mais força do que criatividade, na verdade. É superior ao seu antecessor, mas ainda assim não chega a ser um produto musical que nos pega de surpresa ou que surpreende. Ele agrada e tudo bem ser “só” isso.

Os dois primeiros discos do Chvrches foram produzidos pela própria banda. Enquanto Lauren Mayberry, a carismática e ativista vocalista da banda é a principal imagem do grupo e sua porta voz, o músico Martin Doherty se ocupa com a maioria das composições e Ian Cook, o mais velho deles, fazia toda a parte de produção. Mas mesmo sem nenhuma de suas músicas até hoje terem entrado no top 10 das paradas americanas, se tornaram conhecidos o suficiente, participaram de festivais o suficiente e conquistaram uma base de fãs suficiente para almejarem esse reconhecimento em forma de ranking.

O primeiro passo foi procurar um produtor, alguém que manjasse do cenário pop global e pudesse contribuir com boas e novas ideias. Dave Stewart, do Eurythmics, trabalhou com o grupo e lançou diversas questões sobre Mayberry a fim de fazê-la despertar para seu papel como a mulher que é a frente e o ponto de conexão da banda com o público. Mas as três faixas feitas com Stewart acabaram de fora de Love Is Dead, não por não serem boas, mas não estavam na mesma vibe que as que vieram depois. Outros produtores passaram pela banda em um espaço bem curto de tempo, até que ficaram com Greg Kurstin. Sim, o cara que produziu Sia e Adele, além de responsável pela produção de Concrete And Gold (2017) do Foo Fighters e Colors (2017) do Beck, além de dar uma mão em algumas faixas para Liam Gallagher finalmente concluir seu primeiro álbum solo.

Fica claro que Kurstin entendeu a urgência e o desejo da banda. Tirando a citada “ii”, todas as faixas parecem acessíveis e fortes o suficiente para tocarem no rádio, ou ganharem clipe, ou entrar para a trilha sonora de alguma produção cinematográfica de jovens adultos. E mais do que em Every Open Eye, o Chvrches de Love Is Dead explora muito mais as dinâmicas e soa grandioso de verdade, seja logo na faixa de abertura, “Graffiti”, ou na cativante “Never Say Die”.

Enquanto composição, os escoceses se mantiveram bastante calcados nas fórmulas pop já estabelecidas. As melodias são boas – e ficam realmente brilhantes na excelente voz de Lauren Mayberry – e os refrãos são marcantes. Kurstin ajudou a encontrar uma roupagem que diferenciasse o álbum de seus antecessores, porém o aproximou de outros discos pop, de timbres sintéticos e eletrônicos que já estão no mundo há algum tempo. “Miracle”, por exemplo, foi produzida por Steve Mac e é a versão do Chvrches para um jeito de fazer música que Imagine Dragons e Halsey já estão exercitando. “My Enemy” tem a participação de Matt Berninger, vocalista do The National. Sua voz está mais flat, sem aquela profundidade a que estamos acostumados a ouvir nos discos de sua banda. No fim das contas, é um bom nome a se associar ao trio de synth pop, mas poderia ter sido qualquer outra voz, inclusive a de Doherty.

Mayberry, Doherty e Cook não moram mais na Escócia. Trocaram Glasgow por Nova York. Mayberry continua sendo uma ativista política e feminista das mais destacadas e interessantes do cenário musical pop e mesmo não sendo um rosto globalmente conhecido, como o de Taylor Swift ou Ariana Grande, sofre seu quinhão de haterismo online. Já ameaçaram até levar uma AK 47 para um show do Chvrches por conta de seu ativismo político. O mestrado de Mayberry analisou a imagem feminina em revistas femininas. Já deu até bronca em fã ao vivaço, do palco, por conta de um “marry me” que ouviu ali da plateia. Com tudo isso na bagagem, foi estranho não vê-la cantando sobre essas coisas em Every Open Eye. Essas coisas fazem parte de quem ela – e eles – são, mas continuam de fora de seus versos. “Deliverance” talvez é o que mais se aproxime, mas sua letra não é sobre uma ideia, e sim sobre ser uma pessoa com certas ideias. Talvez não queiram atrair mais atenção de haters, talvez saibam é baixa a probabilidade de um single com letra feminista chegar ao top 10 (se você não for a Beyoncé), ou talvez só não seja a vontade do grupo tratar desses assuntos em sua arte. Mas que acompanha a banda, e Mayberry em particular, nota que existe uma lacuna de conteúdo aí.

Das 13 faixas, oito são assinadas por Greg Kurstin na produção. O cara é bom. Se não fez o grupo pensar estruturas diferentes, pelo menos deu uma coesão enorme ao trabalho e colocou o Chvrches mais próximo do que é o pop eletrônico contemporâneo & comercial.

É difícil prever o mercado fonográfico. Love Is Dead, além de um bom título, tem o rosto de Mayberry na capa. É a primeira vez que fazem isso. Tem um produtor festejado por trás e está pronto para fazer uma grande campanha de divulgação nos Estados Unidos. De certo modo, tem todos os elementos que uma música básica de alguém mais famoso também teria para chegar ao top 10. De outro lado, para uma banda que precisa surpreender uma massa de ouvintes, não há uma faixa que te pegue desprevenido. Resumindo, não há uma canção com o frescor que “The Mother We Share” tinha quando a banda saiu do anonimato e entrou de vez na playlist de artistas para se ficar de olho. Na expectativa do sucesso, devem realmente se sentir como cantam “Graffiti”: tentar, cancelar, começar de novo.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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