George Ezra equilibra festa e reflexão no gargalo pop de “Staying at Tamara’s”

George Ezra – Staying at Tamara’s (2018)

Por Eder Albergoni

O gargalo do pop, que sempre foi bem aberto, com o tempo foi alargando mais. As misturas tornaram ritmos pouco usuais parte de todo um cenário que já não pretendia delimitar essas diferenças, às vezes muito mais estéticas do que, de fato, de conteúdo. Uma breve reflexão basta para constatar que o referencial pode mudar como um para-brisa, indo do jazz, passando pelo soul, chegando ao R&B, e ainda assim estar perfeitamente inserido na nomenclatura pop. Prateleiras à parte, a gente pode tirar a prova aqui no texto de Voicenotes do Charlie Puth, ou no texto de Good Thing, de Leon Bridges, ou no texto do maravilhoso Ruthless Day, da Gizelle Smith.

O vozeirão sempre chamou a atenção e George Ezra ergueu uma carreira alavancada pelo sucesso de Wanted On Voyage (2014). Esses quatro anos pouco fizeram quanto ao estilo. As características marcantes de interpretação e de composição continuam intactas, como uma repetição, mas que supõe um avanço tímido. Nesse ponto, Staying at Tamara’s, fruto de sua estada em Barcelona, apenas indica o conflito entre o que ouvimos. Um pouquinho agridoce, as letras do disco tendem a estabelecer um contraponto à alegria quase esfuziante das melodias. 

“Pretty Shining People” se destaca pela energia vibrante, mais ainda do que pelo vozeirão do rapaz. Mas conta sobre a dificuldade de viver, aparentemente, na América de Trump, e isso não funciona em nada como ênfase a qualquer aspecto político em sua música. Na verdade, soa muito mais como um respiro no meio do caos.

“Don’t Matter Now” consegue ainda ser otimista, sem levar em consideração o que, naquilo que importa em sua visão, pode ser contornado com onomatopeias e vocalizações. Tudo parece encaixado perfeitamente para que a canção seja interativa, não só te levando a cantar, mas envolvendo todo o corpo.

“Get Away” já mostra mais do conflito existencial e fala sobre a ansiedade de esperar e fazer o sonho acontecer. George Ezra é muito inteligente moldando os arranjos, de forma que a repetição dos compassos signifiquem mais do que apenas notas musicais, e imprime nelas as voltas e rasteiras que o mundo dá.

“Shotgun” tem uma batida marcada e Ezra canta sobre algo geográfico que faz parte da visualização do sonho. Aquele tipo de letra que descreve uma paisagem e te faz estar lá sem nunca ter estado de verdade. Esse tipo de música topográfica é como um relevo traçando a rota que o disco toma a partir daí.

“Paradise” é sobre aquele amor que espera por não ter tanta certeza assim de que é possível acontecer. Remete diretamente à potência sensual de Paolo Nutini, mas mais ainda, toda sua energia instrumental suscita The Killers em “All These Things That I’ve Done”.
George Ezra alcança sua própria versão de pop, pisando em temas vintage, sem necessariamente entrar em outros estilos e muito menos tentando se diferenciar. Nesse sentido, seu som é simples e “All My Love” e “Sugarcoat” são emblemáticas em sua simpatia e facilidade com a qual corre parado no mesmo lugar, sem que isso signifique nada mais do que um momento em que toda a felicidade se acalma no ambiente.
Esse ambiente do qual Staying at Tamara’s faz parte pode ser melhor observado em “Hold My Girl” e principalmente em “Saviour”. Não que todo o distanciamento da primeira parte do disco sirva de esconderijo ou desvio, mas tanto para George quanto pra nós, a festa é a preparação de tudo que nos cerca no dia a dia. George tirou umas férias em Barcelona absorvendo toda aquela cor que um inglês quase nunca vê e de repente se pega tendo que retornar. É a história de uma vida? Parece familiar?
“Hold My Girl” consegue até ser ligeiramente épica. “Saviour” é a trilha sonora de um filme preto e branco rodado nos fiordes suecos. Por mais que a participação das irmãs Soderberg, do First Aid Kit, seja bem limitada, existe um clima que trabalha a favor das vozes, se digladiando contra uma levada western e obtendo um resultado muito satisfatório.
O fim de Staying at Tamara’s é o que a Inglaterra do Brexit, a América de Trump e o Brasil de Temer têm a oferecer: estamos passivos diante um final triste que, talvez a música em suas formas mais flexíveis, seja a única coisa capaz de confrontar a vida real. É esperar muito de George Ezra que ele tome a dianteira no campo de batalha, mas ao menos suas expectativas quanto ao mundo parecem muito bem relacionadas e equilibradas quanto ao entendimento de que mesmo alguém bastante empenhado em salvar o universo também merece um pouco de diversão.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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