James Bay se reinventa buscando um som mais moderno e eletrônico

James Bay – Electric Light (2018)

Por Gabriel Sacramento

Com Chaos and The Calm (2015), James Bay tinha tudo o que qualquer artista em começo de carreira quer: uma grande turnê apoiando uma artista bem maior; um disco bem reconhecido, número 1 nas paradas de seu país e indicado para grammy; singles de sucesso como “Hold Back the River” e “Let it Go”, que tocaram bastante por aí e tiveram milhões de views no YouTube. Para o segundo álbum, uma estratégia natural seria seguir apostando nas mesmas fichas, certo? Mas Bay, levado pelo o que estava ouvindo enquanto compunha Electric Light, resolveu mudar totalmente. E isso incluiu o visual, que perdeu o cabelo grande e o chapéu característico.

Assim como o Alex Turner, que talvez seja o caso de mudança de direção artística mais comentado do ano, Bay foi sincero com seu momento e suas vontades e preferiu uma guinada do que a infelicidade fazendo algo meramente por obrigação comercial. O cantor inglês afirmou que estava ouvindo mais LCD Soundsystem, David Bowie e Frank Ocean; contratou Paul Epworth e Joe Green para a produção e Matt Wiggins e Tom Elmhirst para a mixagem. Já dava para esperar algo totalmente diferente, mas pelos nomes envolvidos e pelas referências citadas, seria algo bem interessante.

Um dos grandes acertos da produção do Bay, Epworth e Green é a forma o álbum acena cuidadosamente para o primeiro. O objetivo não foi fazer uma mudança radical na identidade, que não aproveita nada do que tinha sido feito até então, mas uma evolução. Por isso, temos “Slide” e “Us”, baladas fofinhas que poderiam sem problemas estar na lista de faixas do anterior. Enquanto “Wasted On Each Other” abre o álbum já deixando claro que é um álbum mais barulhento que o primeiro e mais glam, “Just For Tonight” é um rockzinho com violão e pausas que parece a “Best Fake Smile” desse álbum (o arranjo é super parecido e as escolhas também, como o uso de palmas para marcar ritmo).

A identidade e personalidade do artista no álbum anterior era muito marcante, mas a desse novo é fascinante. E a produção consegue afirmar essa nova identidade apostando em um desenho sonoro inventivo – caracterizado por um ótimo trabalho de engenharia de timbres e mixagem -, que confere um aspecto mais moderno, eletrônico e espontâneo às composições. Além disso, temos também uma densidade de instrumentação maior nos arranjos, com muitas ideias competindo e colaborando entre si ao mesmo tempo. Os timbres conferem uma singularidade incrível ao álbum e os arranjos empurram as faixas para a frente, nos fazendo dançar e sentir o impacto e a força da instrumentação. Em alguns momentos, a mixagem processa os instrumentos de uma forma tão caótica, que deixa o ouvinte levemente desorientado e confuso. 

“Pink Lemonade” já impressionava antes quando foi liberada, pelo tratamento mais moderno da voz do cantor na mix e os timbres de guitarra e baixo que ficam entre algo do Kings of Leon e alguma banda indie mais pesadinha. As influências de R&B e soul são facilmente perceptíveis: “Wild Love”, “Fade Out” e a ótima “I Found You” não me deixam mentir. Aliás, essa última também tem um quê de gospel, estilos que dá as caras também em “In My Head”. E o final catártico de “Stand Up” é um dos melhores momentos do álbum.

Bay é guitarrista e quando perguntado sobre se o álbum abriria mão do instrumento, ele negou com veemência. Pois bem, a guitarra é fundamental para estabelecer o tom mais sujo e enérgico de algumas faixas, bem como é dela algumas ideias muito boas que concorrem com o vocal, mas não espere guitarras limpinhas dedilhadas com suavidade tão marcantes no anterior.

Na crítica para o Encore (2018) do Anderson East, eu comparei seu timbre de voz com o do James Bay. Ambos os vocalistas sabem muito bem como exprimir energia e potência nas vozes, sem comprometer a excelência técnica. Em Electric Light, Bay continua cantando e interpretando muito bem, com destaque especial para a interpretação de “I Found You”. No entanto, o grande trunfo vocal dele aqui é a versatilidade: como consegue ir de um vocal mais limpo, fortalecendo a candura de alguns momentos, à vocais mais suingados. Vale destacar também que a mixagem traz uma série de ótimos truques efetivos para os vocais, como efeitos ruidosos em “Wanderlust” e vocoders em “Stand Up”. O trabalho com as harmonias também é muito bem feito, com coros e divisões de faixas vocais bem encaixados.

Uma das coisas que eu mais queria saber sobre esse novo álbum era se o britânico manteria aquele bom ecletismo do primeiro álbum; acho que um resultado mais focado poderia ter sido bem decepcionante. Contudo, felizmente, o que Bay entrega aqui é mais uma saborosa salada de R&B, rock, gospel, soul, eletrônico, com uma produção que soube balancear bem as várias de suas facetas. E assim como no primeiro, mesmo com toda essa variedade, não temos canções fracas. Chaos and The Calm foi um dos álbuns mais legais de 2015 e Electric Light é, sem dúvida, um dos melhores de 2018. Sobretudo o cantor ensinou como se reinventar e fazer o que te deixa feliz da melhor maneira possível.

Foto: Danielle Gornbein

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante. https://twitter.com/gabrielsacr https://medium.com/@gabrielsacramento

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