Michael Schulte tenta sair da periferia pop, mas “Dreamer” é monótono

Michael Schulte Dreamer [2018]

Por Eder Albergoni

Este ano já discutimos alguns artistas europeus como Último, Annalisa, Ermal Meta e Laura Pausini. Sempre ressaltando o vanguardismo italiano em termos de produção musical e como isso se tornou obsoleto com o passar do tempo, mesmo com o sucesso de alguns nomes. O pop em si, na Europa, funciona da mesma forma, seguindo tendências que misturam a música tradicional de um país com algum vislumbre da massificação sonora que sai dos Estados Unidos e da Inglaterra e alcança todos os cantos do mundo. Tendo isso em mente, a tentativa dessa nova geração pop europeia serve como um passo a frente. Ou em última análise, como o início de uma atualização nos termos vanguardistas que nasceram na Itália.

Assim como o eurodance fez sucesso nos anos 90, também paralisou uma evolução que abrangesse toda a comunidade europeia, que parecia satisfeita em se enfiar em clubes de dança. Produções de cunho nacional pouco faziam para mudar essa maneira de produzir música. Artista e bandas acabavam entrando em nichos e vertentes que os elevavam ao status de time B ou C quanto a lançamentos mundiais. Tomando a Alemanha como exemplo, muito pouco saiu de lá fora Rammstein e todas as bandas de metal. Dos anos 90 em diante a produção internacional é praticamente zero. O pop fez pior ainda e só reverberou o que o Alphaville fez no meio dos anos 80 e a polêmica Milli Vanilli. Qualquer outra manifestação musical alemã que se expandiu mundo afora é plenamente tradicional e transmitida por descendentes.

Michael Schulte, nosso artista aqui em questão é um ilustre desconhecido. Mesmo na Europa seu alcance tem sido limitado. Isso pode mudar um pouco agora que o cantor participa do Festival Eurovision, onde cada país da comunidade europeia escolhe e manda um representante, numa disputa conhecida por muitos como a Champions League da música. Dreamer é o quarto disco da carreira de Schulte. O rapaz foi descoberto na primeira temporada do programa The Voice alemão, depois de iniciar a carreira fazendo covers no YouTube.

“You Let Me Walk Alone” é a música que estará representada no Eurovision e é a que dá sequência à carreira que almeja a internacionalização. Tudo o que vem desde James Blunt, passando por Daniel Powter, James Blake até chegar em Ed Sheeran e Shawn Mendes é usado como matéria-prima e única referência. “End of My Days” mostra como é difícil se desvencilhar da dança europeia que preencheu a década de 90.

O desafio de Michael Schulte pode ser compreendido e considerado maior do que a capacidade de vencê-lo. As composições e arranjos são pragmáticos ao extremo e quase nada se destaca. Bons momentos ao longo do disco são difíceis de encontrar. E creia que não há nenhuma comparação e o sarrafo é bem baixo. “The Deep” se salva por uma boa harmonia, “Rusted Blood” é um pouquinho mais selvagem, “The Maze” consegue ser irritante e empolgante ao mesmo tempo, “Flicker” e “You Said You’d Grow Old With Me” são baladinhas de piano que emulam Sam Smith sem o exagero do britânico, mas também sem metade da personalidade.

Tudo que Michael Schulte mostra depois é só repetição. Uma reflexão se faz necessária quanto a utilidade do disco e do próprio artista – não que tenhamos qualquer poder, visto que estamos em um mercado distante e sem qualquer tipo de interferência. Mas cabe sublinhar a existência de uma obra que faz um esforço terrível para ultrapassar a própria limitação geográfica e alcançar outro patamar e, principalmente, outra maneira de ser entendida e julgada. A massificação pop oriunda de países que dominam esse cenário torna praticamente impossível um artista vindo das periferias musicais ter a chance de demonstrar todo o seu potencial. Michael Schulte conseguiu uma mínima vantagem só agora, depois do quarto disco, e ainda assim é muito pouco, mesmo comparando-o com alguns de seus contemporâneos e adversários no Eurovision. Pra não dizer que tudo é absolutamente repetitivo e monótono, “Take It All Away” tem alguma variação vocal e “Take Me As I Am” vem com um pequeno arrojo no arranjo.

Ainda é muito difícil se sobressair fazendo música pop na Europa. Se você não for extramente talentoso e marcar um ponto fora da curva, você só consegue afirmar o quanto o sucesso da eurodance foi péssimo pra qualquer pretensão artística que se empenhe em se distanciar da música tradicional de um país. No máximo isso te colocaria em uma onda de tendência que te manteria irrelevante no cenário internacional. Como Michael Schulte não ganhará o festival, o trabalho precisará ser muito mais duro para sair da sombra dos artistas e cantores já citados aqui no texto. Para nós que gostamos de música, trata-se de uma rara curiosidade observar essa tentativa de se desamarrar de um contexto muito particular e almejar um caminho dos mais árduos. Nisso Michael Schulte merece reconhecimento e alguns plays. Talvez haja sorte suficiente pra catapultá-lo ao reconhecimento e sucesso de fato.

Eder Albergoni Autor

4º elemento, 10º homem (sempre do contra), pinkfloydiano e adepto do meteorismo. Cresceu ouvindo e herdou os LPs do tio. Às vezes suas resenhas parecem crônicas. Às vezes, contos. Às vezes parece resenha também.

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