Mais quente e mais solto: o fenômeno Leon Bridges está de volta

Leon Bridges – Good Thing (2018)

Por Gabriel Sacramento

Em 2015, o mundo conheceu uma versão bem interessante e modernosa de um dos maiores cantores da história da soul music: Sam Cooke. Lembro do buzz que se gerou em torno do seu nome e do outros artistas como Allen Stone e Son Little, da tal onda revival do soul. Leon Bridges, no entanto, trabalhou bastante para fugir do rótulo de cover do Sam e gerar interesse pelo seu trabalho, por algo que fosse só seu. Desde então, vieram as turnês – chegou a abrir para o Harry Styles -, participações em outros álbuns, músicas para séries de TV e outras coisas que se fazem para manter a atividade na indústria. E a maturidade artística, felizmente, veio também.

Bridges esbanja originalidade neste seu segundo esforço de estúdio, Good Thing, produzido por vários nomes, entre eles, Ricky Reed, que trabalhou com o Maroon 5 no último deles e com a Halsey no mais recente. A elegância e o anacronismo continuam imponentes, só que agora, eles são acrescidos de um fator ousadia, que surge maior na equação, o que chama a atenção e torna-se o fator de atração no decorrer do play.

Se Coming Home, mesmo sendo ótimo, parecia um tanto limitado pela forma quadrada que Leon priorizava, Good Thing é o artista se soltando mais na pista de dança com timbres modernos e tão quentes quanto a ótima arte da capa. “You Don’t Know”, por exemplo, é dançante e tem uns timbres bem malucos, como uns ecos diferentes na voz que conferem contornos mais psicodélicos. A abordagem de “Lions” é bem esquisita em termos de mix: parece desequilibrada em termos de volume, com instrumentos surgindo e desaparecendo como em uma colagem. O arranjo é composto por pequenas ideias que se completam sem uma lógica rígida, quase como um improviso mesmo. “If It Feels Good (Then It Must Be)” surge com a temperatura lá em cima e lembra levemente o bom swing do Funk Wav Bounces Vol. 1 (2017) do Calvin Harris. “Mrs” é bem blueseira, conduzida por uma guitarra limpa que parece ter sido tocada pelo John Mayer de 2006. A melhor do álbum, “Shy”, também parece John Mayer, só que na sua versão 2017.

Mas por trás de todos os experimentos que o músico tenta, temos a sua fórmula bem administrada por ele e seu time de produtores. A instrumentação é sempre muito simples, econômica, sem grandes ideias que ofusquem os vocais, sem grandes variações de dinâmica e, portanto, sem muitas surpresas. As faixas que começam lentas seguem lentas e suaves, já as que começam sacolejantes, seguem assim até o fim. Ainda assim, cabe destacar o cuidado da produção com a singeleza das execuções: perceba, por exemplo, como as variações de notas mais fortes para as mais fracas nas frases de guitarra são efetivas em “Mrs”, ou a ênfase em certos acordes específicos na forma como o violonista toca em “Beyond”. A singeleza dessas performances unida com a mixagem seca, leve e bem espaçada do Chris Galland lembra muito os álbuns mais jazzy da Norah Jones. “Bad Bad News” e “Georgia To Texas” evocam bem com o estilo típico da Norah.

Como todo bom álbum de soul, Good Thing é muito vocal. As harmonias desempenham um papel importantíssimo de colorir os arranjos, demarcar mudanças de seções, enquanto cooperam com os vocais principais, enfatizando frases estratégicas das letras. Bridges traz uma ótima performance em todas as faixas, que vai de uma segurança incrível à entrega apaixonada e apaixonante. Sua voz flui fácil com o instrumental e temos um casamento perfeito para o bem da proposta.

Aos poucos, estamos vendo Leon se transformar em um artista completo, com muito mais dele para ser apresentado e muitas camadas a serem exploradas. Good Thing é o cantor expandindo seu vocabulário musical com cautela, abusando de uma rica paleta de possibilidades, mas sobretudo sem perder o controle. Sabe o fim de tarde depois de um dia inteiro cansativo quando nossos ouvidos pedem algo mais tranquilo para contrastar com a loucura do dia? Esse álbum é perfeito para a ocasião. Mas também para diversas outras, já que a beleza dele não parece facilmente esgotável. Ouça sem moderação.

Gabriel Sacramento Autor

Programador, leitor assíduo e viciado em música de todos os tipos. Acredita que se há uma esperança para este mundo maluco e caótico, ela pode ser colocada na forma de melodias gentis, harmonias eficazes e um ritmo marcante.

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