Sigur Rós lança projeto Liminal. E é inovador demais!

Sigur Rós – Liminal [2018-ꝏ?]

Por Lucas Scaliza

De surpresa, a banda islandesa Sigur Rós avisa que está iniciando o projeto Liminal. Ou, melhor dizendo, que sua primeira encarnação musical já está concluída, editada e pronta para ser ouvida nas plataformas de streaming.

Não se trata de um novo álbum, nem de uma nova banda. É uma playlist que tem um começo – precisamente hoje, dia 8 de maio de 2018 – mas não tem data para acabar. Daqui para a eternidade, a playlist/projeto será sempre atualizada com novas produções musicais do Sigur Rós, de membros separados da banda e outros colaboradores. Liminal, assim, é como um projeto paralelo em que os islandeses deverão colocar muito de sua produção mais etérea e parcerias com tantos outros músicos e produtores quanto for possível.

Não há como saber como o projeto vai se comportar e se vai sofrer grandes mutações no futuro, mas essa primeira versão da playlist mostra que não se tratam de canções com introduções, riffs, refrãos, pontes e nem com letras ou vocais. Assim como o também recém-lançado Route One [2018] – que reúne pedaços de música usados no projeto de que colocou uma van do Sigur Rós percorrendo a Islândia, filmando tudo em tempo real e criando música ao mesmo tempo a partir de elementos que já estavam na discografia da banda –, Liminal é música ambiente, diegética, paisagens sonoras e muita abstração. Quem já gosta deste tipo de som vai poder não apenas curtir, mas sentir também.

Como tudo que os islandeses do Sigur Rós fazem, essa playlist também tem um caráter transcendental. Como a própria banda diz, Liminal é muito mais que música ambiente com curadoria de Jónsi, Alex Somers e Paul Corley. É um projeto para que se entenda o Sigur Rós como um ecossistema, o que remete, de certa forma, às recentes estripulias de Björk ligando música com tecnologia, meio ambiente e sustentabilidade, principalmente na era do álbum Biophilia [2011].

“[Liminal] Identifica as conexões e fronteiras entre trabalhos feitos e que ainda estão por vir; entre canções escritas há 20 anos e colaborações que serão feitas amanhã”, diz o anúncio da banda. Ou seja, é uma colcha de retalhos muito mais complexa do que utilização de sobras de estúdio. É uma tapeçaria sonora que reaproveita o que estava hibernando e adianta o que poderá ser o som do grupo e/ou de seus integrantes num futuro – ou pode acabar sendo apenas uma faixa em Liminal mesmo, pois esse futuro pode apenas ser sugerido e nunca chegar.

Essa primeira versão da playlist é bastante rica. Há canções que nos colocam em túnel aparentemente frio e vazio, não fosse pela corrente de ar gelado; há sons mais intimistas e partes que lembram muito Valtari; há sons que nos colocam em meio às árvores de uma floresta, de noite; e uma das faixas mais impressionantes reproduz o canto das baleias, esses grandes mamíferos que visitam os mares da Islândia e são constantemente caçados [o que é motivo de debate no país].

Jónsi explicou que nos últimos dois anos a banda tocou muito ao vivo, mas o repertório sempre deu mais espaço para as músicas mais roqueiras. Com Liminal, o trio podem ficar numa sala escura e se concentrar na atmosfera do que vão criando em conjunto, manipulando gravações, vozes, efeitos, etc.

Uma playlist que é uma mixtape, um ambiente bastante abrangente e que vai incluir não só novas faixas e novos remixes, mas também álbuns e volumes de músicas. Ou seja, é como se fosse um lugar, mas sem existência física, um tipo de trabalho que não caberia num vinil ou CD, e nem mesmo em um box, dada a sua natureza viva, de não ser um projeto musical fechado.

O formato álbum ainda é o mais praticado pelos artistas e bandas como forma de condensar uma produção musical e liberá-la para consumo. Os EPs vêm ganhando força, mas muitos apostas que os singles é que devem dominar o cenário, com artistas lançando e divulgando uma música por vez, sem a necessidade de entregar trabalhos longos. Ou então só condensá-los em um álbum depois que vários singles já estiverem consolidados – como o Rashid fez entre 2017 e 2018.

Mas o Sigur Rós não segue tendências. Com Liminal, não seguem o formato álbum e nem excluem a possibilidade dele. É de fato um ecossistema onde novas músicas irão surgir continuamente, se desenvolvendo livremente, ao gosto e no tempo de seus criadores. Nada se concluí para sempre, e nada poderia existir em outro formato ou lugar que não fosse em Liminal.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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