Em novo e funkeado disco da U.S. Girls, sobra até para Barack Obama

U.S. Girls – In A Poem Unlimited [2018]

Por Lucas Scaliza

A originalidade que se espera de um artista – ou pelo menos de uma certa estirpe de artista –, pode vir de diferentes lugares: seja da utilização de um determinado equipamento, do som e do timbre que se tira de um instrumento, da forma como frustra nossas expectativas com cadências harmônicas ou como faz melodias que parecem que nunca ouvimos antes, sem falar na estrutura das canções. E tem uma originalidade mais súbita que está intimamente ligada ao artista: o jeitinho como se expressa. Por mais comum que seja estrutura, harmonia, timbre e letras, a forma única como expressa tudo isso fala mais alto. É o caso da norte-americana Meghan Remy, nascida nos EUA e vivendo em Toronto, com seu pseudônimo U.S. Girls.

Remy fica mais uma vez entre o pop alternativo, do tipo que Joni Mitchell pararia para ouvir e Aimee Mann e Jenny Lewis se reconheceriam no som, e o rock noiser. In A Poem Unlimited é o tipo de álbum que entrega um deleite sonoro atrás do outro, fácil, acessível, com levadas de baixo que remetem do grunge noventista aos Bee Gees, com guitarras à Sonic Youth que entram apenas para jogar fumaça no som e teclados e sintetizadores que deixam seus acordes soarem, criando uma dimensão espacial. E Remy nunca perde de vista a sensibilidade pop.

Ela toca em bandas desde o início do século, mas embarcou em uma aventura solo sob o nome U.S. Girls em 2008. De lá para cá vem refinando o estilo e, principalmente, essa sensibilidade pop. É notável que ela não partilha da ansiedade de criar um hit radiofônico apostando em vocais altos e emoções artificiais. Ela está realmente preocupada com a qualidade do que vai soar em seus ouvidos, com a quantidade de elementos coerentes que compõe seus arranjos. “Rosebud” é uma pérola da música pop norte-americana, nesse sentido. “Incidental Boogie” é aquele rock que poderia ser sardento e estridente na mão de uma Joan Jett, mas no álbum da U.S. Girls acaba tendo mais groove, sem perder o punch que tão bem evidencia a força roqueira da música. E de brinde fica aquele cheiro de distorção vazando sutilmente pelas beiradas da canção.

Ritmo é outra parada em que In A Poem Unlimited é rico. “M.A.H” é pra uma festa temática no Caribe. Impossível não ouvir a percussão e chimbal e não querer ensaiar uns passos bem coreografados por um salão. A levada de “Pearly Gates” é uma mistura interessante entre hip hop e ritmos que podemos encontrar facilmente no Nordeste brasileiro, mas editados de uma forma que se misturam a uma composição pop sem parecerem fora de contexto demais. Lembra algumas das levadas em que o Arctic Monkeys apostaram em AM [2013]. Já “Poem” aposta em uma condução rítmica mais quadrada e eletrônica. Funk vai, dá meia volta, e sempre volta ao registro. Até surf rock dá para encontrar no meio de tudo isso.

O fato é que o novo álbum da U.S. Girls varia bastante e nunca erra, nunca deixa de fazer uma música que mantém o ouvinte em movimento emocional, mesmo que esteja ouvindo – como eu agora – sentado e estático, mas deixando a imaginação vagar enquanto tenta relatar a experiência do álbum em questão.

Com quase 8 minutos, “Time” é o momento de maior exigência que Meghan Remy se permite no disco. Uma faixa incrível com psicodelia, solos de saxofone de outra dimensão e ritmo pulsante. Ela deixa a banda falar por ela, traz de uma vez por todas os instrumentos para a frente da mixagem. E por mais que fuja do pop, ainda conserva aquele mesmo jeitinho que as ótimas faixas iniciais “Velvet 4 Sale” e “Rage of Plastics” demonstraram. U.S. Girls pode ser o projeto solo de uma compositora e cantora, mas uma do tipo que sabe se beneficiar de uma boa banda. No caso, a banda é o coletivo canadense de jazz e funk Cosmic Range.

Não deixe de conferir as letras de In A Poem Unlimited também, uma vez que são um show à parte. São histórias de vingança feminina tarantinesca, um conto que imagina o perigo de ir para um Paraíso governado por homens, os sentimentos de uma mulher que ficou infértil por causa da natureza de sua profissão, ralha contra um antigo amor e sobra até para Barack Obama! A artista narra como ele parecia o cara certo para governar, mas que levou dois mandatos para ela perceber que ele nunca esteve ao lado dela, ou do povo, no final das contas, deixando a[s] guerra[s] rolar[em] e fazendo o papel do homem político como qualquer outro. Meg Remy não é só uma feminista, mas uma que sabe contar as histórias e fazer o público dançar com elas.

Pela forma como trata os assuntos que escolheu cantar, pela forma como se integra ao pulso da banda Cosmic Rage, diria que In A Poem Unlimited é um dos discos mais imperdíveis deste ano. Parece inofensivo, mas só até você começar a realmente dar ouvidos a ele.

Me pergunto o que ela dirá de Donald Trump com sua música em um futuro próximo.

Lucas Scaliza Autor

Jornalista e ariano, joga truco e tarô. Nunca teve amnésia alcoólica. Tem vários discos mas não tem vitrola. É host do Escuta Essa Podcast e ouve tanta música tão alto que é capaz de ficar surdo um dia.

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